sexta-feira, junho 11, 2010
quinta-feira, maio 27, 2010
Pacard
Um lugar onde qualquer lugar seja bom. Um momento certo em qualquer hora do dia. Um dia perdido, ou um dia ganho. Um ir e vir, andar em circulos, sentar, caminhar, erguer a mão. Uma e depois a outra. Bater palmas. Rir, chorar, pensar que pensar é só pensar. Ler até que ardam os olhos. Pensar até dormir. Orar antes de dormir. Dormir em meio à oração. Acordar envergonhado porque dormiu. Retomar a prosa com Deus e dormir novamente. Serenamente. Acordar pela manhã e lembrar de orar andes de levantar. Fazer manha de raposa. Fingir que dorme enquanto ainda dormita. Acordar antes que o sol também desperte, para acordar a manhã ao som dum boceho. Respirar a brisa e soprar o vento. Aparar o vento com a mão de fora do carro enquanto corre.
Sofrer decepções. Passar recibo de dor. Cair fundo, lamber a lama, cair de cama. Quase morrer. Receber visitas. Visitar alguém. Receber abraços. Abraçar amigos. Perdoar inimigos. Fazer conchavos. Martelar a mesma tecla. Quebrar a cara. Estancar feridas. Aplacar a dor. Recomeçar. Cantar canções. Desafinar. Olhar de lado. Olhar de frente. Ser olhado. Enfrentar olhares. Repartir o pão. Dividir a cama. Fechar o livro. Abrir a alma. Correr da chuva. Esperar a noite. Ansiar pelo dia. Temer trovão. Espiar lá fora. Enganar a fome. Fazer xixi. Cocô também. Babar no travesseiro. Roncar. Economizar água. Economizar luz. Economizar vida. Esbravejar de raiva. Acalmar os ânimos. Promover a paz. Promover a guerra. Pagar o preço. Cobrar justiça. Inclinar a fronte. Fazer reverencia. Banho de asseento.Acentuar errado. Errar é humano. Justo só Deus. Perfeita paz. Amor com amor se junta. Juntar os trapos. Cair fora. Voltar tudo de novo. Rebobinar a fita. Espargir sementes. Semear o pão. Colher com colher. Carregar bandeira. Empinar a pipa. Dobrar bilhetinho. Excrever um poema. Roubar o tempo. Brincar de esconder. Quem achar primeiro. O primeiro beijo. O último beijo. O último adeus. Em primeiro Deus. Bater o pé. Duvidar. Concordar. Aceitar. Devolver, Subir, sair e sumir. Simular. Dissimular. Refletir. Investir, dividir, somar, multiplicar, fracionar, equacionar, entrar e logo sair. Chegar pra ficar. Sair sem dizer nada. Entrar em silencio. Um lugar ao sol. Um lugar no mundo. Um mundo só pra gente. Cheio de gente. Cheio com a gente. A natureza morta. A água viva. A Agua da Vida. Um Criador. O Criador. A criatura. Inveja. Raiva. Zelo. Desvelo. Sinceridade. Não ver. Nem mesmo olhar. Ver pra crer....refletir novamente...devagarinho cair, como tomba uma arvore...como os infinitos se encontram no horizonte. Os infinitos de Deus.
sábado, maio 22, 2010
Pacard
Dez mil seitas e duas mil religiões há no mundo, sem que estes números ofereçam alguma precisão. Há países onde são milhões os seus deuses. Somos bilhões de pessoas, não apenas vivas e contadas pelos modernos censos e avaliados pelas estatísticas, mas todas aquelas bilhões de pessoas que já existiram neste mundo, cheio de religiões, cheio de personagens, cheios de medos, anseios, necessidades, sonhos e sobretudo crenças.
Somos seres distintos dos animais, a quem Darwin classificou e qualificou de irmãos remotos, ancestrais não evoluidos, o que na concepção judaico cristã, e por via indireta também, islâmica, torna-se uma brasfêmia, pois implica em duas afirmações antagônicas: Ou o homem, feito à imagem e semelhança de Deus, e nesse caso, advindo de uma ameba evoluida, torna o Seu Criador outra ameba, para ratificar esta afirmação mosaica, ou então, mata o Criador com um golpe único de uma lâmina mordaz oculta sob o manto da ciência.
Mas não é tão simples assim, pois desta forma estaria matando também a essencia destas bilhões de pessoas que um dia nasceram, foram amamentadas e acalentadas, receberam nomes, foram chamados de filhos e amigos, ou mesmo inimigos. Tiveram dores, alegrias, se ajuntaram em duplas e reproduziram outros filhos a quem amamentaram e os viram andar pela primeira vez, os encaminharam para a vida, ensinaram a eles lições e os protegeram o quanto puderam dos perigos que o mundo já oferecia desde então.
Estas mesmas bilhões de pessoas, que ao seu tempo, lugar e modo, se ajuntaram em grupos, bandos, tribos, clãs ou fraternidades,quase sempre o fizeram em solene reverencia a algo em comum, misterioso e invisivel: o seu medo. Mais do que a alegria, a esperança, o companheirismo, o medo sempre uniu as pessoas, porque medo só é fracasso, mas medo em conjunto é uma causa. Um partido. Uma religião (Não podemos confundir as religiões que nasceram a partir do medo da morte e desgraças, cujos destinos eram confiados à sapiência dos feiticeiros e sacerdotes, com aquelas criadas a partir da contemplação e busca de respostas para os mistérios da natureza humana).
Temos no entanto duas teologias distintas nesse raciocínio: uma que cria elementos e formula conceitos a partir de sua própria interpretação de fenômenos ligados às forças da Natureza, a teologia de valores extrínsecos, e outra, que trabalha soluções que mesclam atitudes reais intrínsecas, inerentes ao próprio indivíduo e que dá resposta às suas questões íntimas no tocante à morte, ao sofrimento, e relativas à paz de espírito, essencial a todo ser humano.
São aparentemente apenas formas de cultuar aos deuses, cujos fenômenos da natureza se assemelhavam aos seus medos ou às suas aspirações, transformando “deus” em “Deus”, porquanto passa a ser pessoal essa crença, nascendo sempre de forma pedagógica, seja punitiva ou contemplativa, mas única. Nascem então bilhões de deuses moldados à forma e semelhança do homem, porquanto atribui a si culpa e pequenez diante do incompreensível e icognoscível, mas que vê nestes deuses distantes a resposta para as questões que o caminhar da vida lhe permite formular. Não há respostas, apenas olhares rumo ao infinito em busca de nada, na ânsia que assuma a divindade criada, caráter antropomórfico, para que possa compreendê-lo e criar uma proximidade segura até que a morte os separe.
Já no pensamento judaico cristão, em que o Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, nada pode fazer para encontrar esse Deus, não pode mapear nem rastrear Seus caminhos, fica uma possibilidade única de contato com a divindade: encerrar a busca e desixar-se encontrar por Deus. Não compete ao homem correr, mas parar. Não compete ao indivíduo formular imagens ou essencias, moldar o caráter e as características que poderia ter o seu Deus Criador, mas em simplesmente permitir-se envolver pela bondade desse Criador, que o gera a partir do nada, e que com um sopro o faz andar, pensar, sorrir, chorar, deitar, levantar ou simplesmente existir e ser completo em cada etapa do seu caminho.
Se de um lado, caminhamos pela mão do tempo e da história, e encontramos um universo de bilhões de pessoas que buscaram as mesmas coisas, somos levados a pensar e temer que somos mais uma delas, diante das tantas outras bilhões que estão por vir, e formularem as mesmas perguntas, e desejarem ser únicas, como desejamos, porque de nada vale para cada uma delas, e eu e voce, inclusive, que sejamos formiguinhas de contemplação do Todo Poderoso em sua enfadonha tarefa de absolver os inocentes e punir os culpados até que o sol se apague e tudo não tenha passado de uma fração de tempo na eternidade. Ou se de outro lado, sejamos sim, uma das bilhões de pessoas, com nome e sobrenome ( nome de família, o que diz que tivemos uma um dia), e historias a contar, mas alinhados numa caminhada com um Deus amigo, de preocupações reais com as minhas preocupações e suas reais, com empatia e simpatia para com o tropeçar continuo desses pequeninos que titubeiam no caminhar, e que não me faz correr atrás de suas pegadas para que eu O encontre, mas que segue Ele então, nas minhas próprias pegadas, ao mesmo tempo em que prepara veredas que me esperam, e que me sutém nessa jornada, e que me abraça em minhas mágoas, e seca as minhas lágrimas, e que guarda o meu tesouro, que sou eu próprio, para que mesmo em chegando o descanso da morte, possa ser encontrado intacto e perfeito, na manhã da ressurreição e abraçá-lO, conhecê-lO, ouvir a Sua voz e desfrutar as delícias que me prometeu.
Tenho saudade deste Deus e desta Teologia, que me dispõe na segurança de uma esperança que me faz desejar continuar a jornada sem olhar para trás, exceto para que lembre dos feitos de Sua bondade e da beleza de Seu caráter, cuja luz deseja espelhar em mim, pelo modelo que me fez conhecer, Seu filho Jesus.
Tenho saudade desta Teologia que me permite saber que em bilhões, eu sou único, mas que como único, só sou completo se com estes bilhões estiver o meu coração. “Ama ao teu próximo como a ti mesmo” pode ser traduzido também em “ama aos bilhões de filhos de Deus com tal intensidade, para que te sintas amado bilhões de vezes mais pelo teu Deus”. Muda o sentido da expressão. Multiplica em infinitas vezes esse amor, e que minha fé me diz, que é apenas uma centelha, uma infinita quantidade de amostra do amor incontido e incontável que o Deus que caminha por entre bilhões de pessoas, continue firme ao meu lado.
sábado, abril 17, 2010
Pacard
Quanto mais nos tornamos conhecidos, menos livres somos, porque nos tornamos referencias. Recebemos rótulos e os rótulos, mesmo que involuntários, nos comprometem a sermos eternamente aquilo que nos mostramos por mais de uma vez. A constante repetição leva inevitavelmente à ação.
Se um dia fezemos algo que divertiu as pessoas, e na segunda vez que nos encontraram, também os divertimos, estamos então decididamente condenados a fazer os outros rirem até mesmo depois que não mais existirmos.
Se um dia fizemos algo certo, o erro não tem mais lugar em nossas vidas, pois nos tornamos modelo para aqueles que não se tornaram tão notáveis. Se o que fizemos foi algo belo, não temos mais o direito de construirmos nada menos belo do que o modelo que selamos na mente e no desejo das pessoas.
Não escolhemos o que somos. Somos o que pensam que somos, porque um dia nos mostramos assim.
Quanto mais públicos nos tornamos, mais escravos também seremos daquilo que deixamos à mostra. Se somos livres, nossa liberdade é ao mesmo tempo nossa prisão, porque causaria escândalo aos que nos elegeram como emblemas para buscarem sua própria liberdade. Se somos tímidos, nos acorrentamos à nossa timidez como tábua de salvação no naufrágio dos grupos que nos acolhem e em suas sombra nos escondemos para fugir de nossa pr[opria luz, mesmo que não tenhamos nenhuma.
Somos responsáveis pelo que cometemos. Não apenas responsáveis pelos erros e acertos, mas até mesmo pela mediocridade com que nos abraçamos ao tentar fugir dos holofotes.
Somos nossa própria sombra e nossa sombra nos governa, porque é ela que nos precede, se houver luz antes de nós, ou ela nos segue, se a luz nos preceder em nossa caminhada.
Somos cativos pelo nosso sucesso ou pelo fracasso que logramos ter. Se hábeis, não temos mais o direito à inaptidão. Se inaptos, qualquer habilidade que surja é entendida como lapsos de nossa capacidade.
Se somos conhecidos por nossa capacidade profissional, nossa vida pessoal se funde om nossa caminhada. Se não tivermos êxito em nossa vida social, será noss vida pessoal quem dará testemunho de nosso caráter. E ao virem à tona nossas qualidades ou nossos defeitos, serão eles quem irão demarcar nosso território existencial.
Somos nossas próprias testemunhas, e ao mesmo tempo nos tornamos completos desconhecidos para nós mesmos. Seja o que for que queiramos ser, seremos precedidos pelo que já fomos antes. Nosso passo seguinte pe orientado pelo passo anterior. As fractais de nosso andejar se tornam mnemônicos desenhos traçados pelo circulo ao qual não deixaremos nunca de pertencer.
Por mais que queiramos mudar de direção, haverão sempre setas apontando para frente, que abrem nossos caminhos, e se nos voltarmos para trás, em busca de nossas raízes, lá estarão as mesmas setas apontando para todas as direções ao mesmo tempo. Nossas escolhas serão inevitavelmente nossas escolhas e jamais do destino, pois o destino são estas setas, e o destino mostras probabilidades, porém, somos nóes quem levantamos a perna de damos o passo primeiro.
Seja o que for, como for e porque quer que seja, nossa inércia governa nosso caminhar.
Não existem lados numa linha divisória. Seja de que lado estejamos, seremos culpados ou inocentes, de acordo com as regras daquele lado em que pisamos.
Não podemos dar conselhos, porque um dia nós mesmos teremos que segui-los, porque nos acorrentamos às nossas palavras. Portanto,estaremos sempre contrários em qualquer ponto cardeal em que aportarmos nossa existencia. Resta-nos seguir caminhos. Caminhar. Viver.
dpacard@gmail.com
sábado, abril 03, 2010
quinta-feira, abril 01, 2010
quarta-feira, março 31, 2010
sexta-feira, março 26, 2010
DNA DO MÓVEL BRASILEIRO
Começo neste espaço uma cruzada pela busca da identidade do design do móvel brasileiro. Não se trata de nenhum movimento com intenções associativas ou corporativistas, mas de uma necessidade sentida em campo de trabalho de uma linha mestra que norteie o móvel brasileiro num crescente de criatividade.
Temos nossas origens nessa área de idéias dos primeiros mestres: Zanine Caldas, Sergio Rodrigues, Lina Bo Bardi, Joaquim Tenreiro e outros nomes que mesclavam arte com arquitetura e sentimento pátrio no tocante ao produto nacional, entre os anos 50 e 70 do século XX. Depois disso, num soluço entre um espasmo e outro, surgem os Irmãos Campana,e por aí paramos.
Não quero menosprezar aqui o trabalho de centenas de profissionais que silenciosamente se debruçam sobre suas pranchas ( como sou antigo), sejam elas planas ou eletrônicas, e dali tentam levar ao mercado suas idéias, quase sempre bloqueadas pelo intenso sentimento de um mercado cuja cultura oscila quase totalmente para o magnetismo do brilho gerado pelas bolhas européias das feiras de Milão, Valencia ou Hanover.
Tímidos concursos nacionais (dos quais me recuso a participar por razões obvias) tentam criar uma atmosfera de cultura e fazem emergir vez por outra talentos e idéias que em breve são sublimadas pelo novo brilho que o ar do Atlântico sopra sobre as eminencias mercadológicas de Pindorama.
Pobres criaturas, que se valem de câmeras digitais para surripiarem imagens distorcidas e as desembocarem nas industrias que esperam pela benesse destes infelizes, como pintões anseiam pelos nacos de minhoca que as mamães passarinho trazem várias vezes por dia. Pobres atiradores cegos que erram o mercado e acertam os próprios pés ao permitirem que cada vez mais enterremos nossa cultura no mofo do velho mundo que precisa se reciclar à custa do suor e das expectativas dum mundo cheio de idéias, mas com medo de trazê-las à luz.
Por que o medo do novo? Porque o novo pressupõe responsabilidade de continuar com o novo a cada dia. O novo não caminha sem idéias. Idéias não britam de máquinas, mas de pessoas.Pessoas preparadas para fabricarem novas idéias. Pessoas preparadas para transformarem essas idéias em objetos. Objetos do desejo e objetos com usabilidade, funcionabilidade e sobretudo capacidade de suprirem as necessidades do consumidor, do lojista, do fabricante, mas sobreudo de alimentarem as milhares de familias envolvidas na indústria moveleira no Brasil.
Dezenas de milhasres de marcenarias e indústrias de móveis no Brasil. Centenas de milhares de pessoas envolvidas na estrutura do mobiliário. E profissionais cuja soma seja possivel contabilizar nas palmas das mãos, se apresentam com coragem de propor mudanças. Mas se calam pelo medo de enfrentarem a barreira natural de qualquer inovação.
Estou quebrando esta barreira. Dando a cara a tapa, mas quero fazer esta mudança. Faço minha mudança pessoal. Faço a mudança com meus clientes. Faço a mudança com minhas idéias e meus produtos. Pode ser apenas um sopro, uma bolha, mas é a minha bolha. Não outorgo a ninguem mais meu direito de criar coisas com base nos conceitos da minha terra, da minha gente, dos meus costumes e que possa traduzir a minha vontade de gritar ao mundo que somos brasileiros. Os melhores que podemos ser. temos o melhor design brasileiro que o mundo pode conhecer. E que nos copiem, pois temos muito mais.
Pacard
terça-feira, março 02, 2010
segunda-feira, dezembro 07, 2009
O DESIGN COMO FERRAMENTA DE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Pacard Designer
dpacard@gmail.com
Design é Compromisso social
· Imagine passar por uma rua onde todas as casas são iguais
· Imagine entrar em uma loja onde todos os produtos tem a mesma embalagem, branca, com apenas nome e numero de identificação do produto.
· Imagine ouvir uma musica onde não há acordes ou dissonâncias. Apenas uma sequencia de notas básicas em compasso binário (1, 2, 1, 2, 1, 2...)
· Legitimo pingo dágua na cabeça
· Imagine comer todos os dias durante anos, a mesma comida, sem tempero, sem variação de sabor.
· Imagine uma estrada em linha reta, sem início e sem fim.
Assim é o mundo sem Design
· As mesmas coisas
· Coisas sem graça
· Coisas de baixo valor
· Coisas desordenadas
· Coisas desproporcionais
· Coisas que não levam a coisa alguma e a lugar nenhum
Imagine uma cidade onde todas as pessoas acordam, vão ao trabalho, voltam do trabalho, dormem, fazem suas refeições, e novamente acordam e seguem a mesma rotina.
Imagine um lugar onde nada muda, todos os dias e todos os meses e todos os anos. As manhãs frescas, as tardes quentes, as noites longas e a vida um grande vazio.
Assim é o mundo sem design
E o consumidor sabe disso.
Imaginem uma cidade pequena, onde há poucas fábricas, algumas lavouras, um pouco de campo, algumas casas de comércio, uma ou duas escolas, e uma vida rotineira e sem expectativa que vá além de comer, beber, trabalhar no mesmo trabalho, falar as mesmas coisas todos os dias, com as mesmas pessoas e ao fim da vida, descobrir que passou pelo mundo e nada deixou.
Imaginem viver em um lugar onde todos buscam ganhar de todos e tirar da terra tudo o que for possivel, sem nada deixar em troca, e ao fim da vida descobrir que semeou, plantou, colheu, guardou, mas não partilhou nem compartilhou, e nem tornou o mundo melhor.
Assim é o mundo sem design!
Quando fui honrado com o convite de compartilhar das experiencias com as quais tenho sido galardoado ao longo de minha trajetória profissional, confesso que busquei nos meus arquivos, um sem número de opções, de temas, alguns técnicos, outros motivacionais, que pudessem sensibilizar tão distintos homens e mulheres, empresários e empreendedores, do meu querido Estado de Santa Catarina, da minha querida cidade de Lages, das minhas queridas cidades de Rio Negrinho, São Bento do Sul e da minha apaixonante cidade de Campo Alegre.
Pensei em falar sobre o peso do Design nas economias pós guerra da Itália, da Dinamarca e dos demais países escandinavos, que deram ímpeto à produção industrial daqueles países até o dia de hoje.
Que livrou o povo daqueles países do fantasma da guerra e da fome em tão poucos anos, a partir de economias destroçadas, mas com uma matéria prima que brotava do chão, o PINUS.
Pensei que poderia falar e até mesmo ilustrar com imagens a diferença dos valores básicos de uma peça de madeira bruta, e a mesma peça com valor agregado tendo o design como ferramenta de lucro e geração de empregos.
No entanto, percebi, ao longo desta reflexão e busca, que mais do que uma palestra de cunho tecnológico, ou que falasse das tendências do Design nesta pátria mãe gentil, era preciso que eu contasse apenas duas histórias. E não são historias contadas por outros ou que eu tenha ouvido ou lido, mas duas historias, nas quais eu próprio tenha sido protagonista ou coadjuvante.
A primeira delas conta a historia de um lugar pequeno, pacato, igual a tantos milhares de lugares pequenos e pacatos que cintilam no mapa do Brasil.
Uma pequenina vila, que tinha uma escolinha “brizoleta” (apelido carinhoso
dado às escolinhas rurais e periféricas de madeira, edificadas no então governo de Leonel Brizola, no RS), e no entorno desta escolhinha, havia um pequeno amazem, um boteco, um campinho de futebol, num lajeado natural, crianças pobres, pés no chão, cheias de verminoses, que morriam de doenças como: Difteria, Tétano, Coqueluche, Sarampo, Diarréia, picadas de cobras e desnutrição.
Uma cidadezinha com pouco mais de 10 mil habitantes, que figurava no mapa apenas como uma estância climática, recomendada para tratamento de doenças respiratórias das familias mais abastadas da capital.
As casas não tinham banheiro. Tinham patentes no quintal.
As casas não tinham energia elétrica. Eram iluminadas por lampiões à querosene.
As casas não tinham receptores de rádio, Televisão, muito menos.
Higiene, então, era artigo de luxo. Tomávamos banho uma vez por semana, em uma gamela de madeira. O famoso banho tcheco.
Aos homens daquela cidade, cabiam trabalhos como agricultores, pedreiros, carpinteiros, alguns poucos marceneiros, funcionarios publicos, vimeiros e algumas outras profissões esparsas, porque havia muito pouco o que fazer naquela cidade.
Às mulheres, cabiam os papéis de donas de casa, professoras, atendentes de balcão e principalmente agricultoras.
Aos meninos, a partir dos 12 anos de idade, cabia que dividissem a escola com as fábricas de produtos à base do vime. Sua tarefa consistia em descascar vime e trançar cestas mais simples. Aos adultos, era destinado o trabalho mais elaborado de trançar móveis e objetos decorativos.
Ao final do dia, nas tardes de verão, reuniam-se à frente das casas para tomar chimarão, fazer fofoca e esperar o sono chegar.
Às meninas, cabiam as tarefas domésticas com a mãe, os estudos e brincadeiras próprias de meninas daquele tempo.
E aquele povo, embora feliz, reunia-se ao entardecer da vida, esperando a morte chegar.
Assim é o mundo sem Perspectivas !
· Um dia, apareceu alguém que tinha um olhar diferente sobre as coisas daquele lugar. Uma mulher. Estrangeira. Artista plástica e Designer.
· Onde haviam crianças jogando futebol com bola de meia, ela viu imagens e as reproduziu em mosaicos nas paredes de seu atelier. Começa a nascer a iconografia daquele lugar. Pessoas que andam, pensam, sonham, amam e são amadas, são retratadas em retratos diferentes, em forma de arte.
· Onde haviam mulheres lavando roupas nos tanques rudes de madeira, ela viu mãos delicadas, capazes de reproduzir imagens em tapetes de lã e ainda as viu movimentando pincéis com maestria e sensibilidade.
· E chamou aquelas mulheres para a sua arte também.
· Onde haviam homens sentados no botequim conversando coisas vazias, chamou-os a preencher lugares à volta de bancadas de trabalho, e ensinou à estes homens a trabalhar com as mãos e com a imaginação. Nascia uma escola e uma empresa de artesanato.
· Onde antes haviam mulheres com vidas vazias, passou a ter artesãs que contentes laboriavam fio a fio e teciam e cardavam a lã que seria transformada, pelas mesmas mãos, em roupas novas para seus filhos, materiais esolares, geladeira, televisão, casas novas e esperança de futuro.
· Onde antes haviam crianças desnutridas e com olhares assustados caçando passarinhos, como lazer, ou engraxando sapatos e descascando vime, como complemento alimentar, passa a existir um lugar onde o vazio nada mais é do que um imenso lugar a ser preenchido, se torna em esperança, e a esperança recebe louros em forma de progresso.
· Onde haviam meninos meninas com vidas ceifadas pelos males da pobreza, florescem jardins em vias publicas e as casas de comércio enfeitam suas vitrines para bem receber o visitante que é atraído pelo movimento desta mulher empreendedora.
· Onde os esgotos das casas corriam à céu aberto, vêem-se então obras de canalização, e junto destas obras, novos projetos de urbanismo.
· E com eles, novas construções, e com as construções, mais visitantes, e com mais visitantes, mais exigência na qualidade dos serviços, e com mais qualidade de serviços, a sociedade começa a conhecer e sentir mais qualidade de vida.
· Tudo isso porque uma pessoa que tinha no Design sua experiência, e que tinha no ser humano seu olhar, e decidiu ser diferente e fazer a diferença no lugar em que escolheu para viver.
Assim é o mundo com Design e seus visionários!
Assim é o mundo com seus empreendedores!
Este lugar e esta história são verdadeiros. As pessoas são verdadeiras.
Este lugar é Gramado, RS. A Designer se chamava Elisabeth Rosenfeld. Os personagens se chamam Renato, Remi, Raul, Ivo, Teresinha, Eronita, Gelosn, Nelson, Rui, Maria Elisa, Ester, Samuel, Paulo Cardoso...
· Conheço bem esta história, porque eu era um daqueles meninos de pés descalço, cheio de verminoses e olhar perdido nos dias que nasciam com o canto dos pássaros e encerrava com o cansaço da rotina.
· Eu era um daqueles meninos condenado a atravessar a vida na azáfama rotineira de quem sonha apenas em chegar ao dia seguinte com pão à mesa.
· Órfão, pobre e mui pequeno ainda, eu aprendi com Elisabeth Rosenfeld, o sabor de coisas que eu entendia como riquezas.
·
· O prazer de musicas que bem mais tarde fui saber serem clássicas. O prazer de manusear a madeira, a cerâmica, os traços do desenho.
· O prazer de ver surgindo de minhas mãos formas e expressões, onde não contava apenas a minha habilidade manual, mas sobretudo meu olhar infinito em busca de diálogos com as razões daquilo que eu havia criado.
· Foi nesse tempo que Gramado passou a existir como um lugar diferente.
· Onde começou a receber pessoas que vinham de longe para poder desfrutar das pequenas peças artesanais executadas pelas pessoas que havia bem pouco tempo antes eram designadas como colonos, incultas ou sem futuro.
· Foi pelo movimento dos visitantes que ao longo dos anos pude compreender que transformar o mundo significa proporcionar à sociedade que nos cerca, um jeito melhor de fazer as coisas.
· Um jeito melhor de ter as coisas
· Um jeito melhor de viver a vida.
· Foi nesse tempo que compreendi, do meu modo, que arte poderia transformar vidas. E que arte reproduzida para que mais e mais pessoas tivessem acesso à ela, com forma e função, chamava-se DESIGN.
· Foi nesse tempo que eu decidi que eu seria, com a graça de Deus, um DESIGNER.
O tempo passou. Gramado cresceu. Tornou-se uma referencia nacional e internacional no design do mobiliário. Criu uma identidade tão íntima com seu mobiliário, que deu origem a um estilo, o “Móvel estilo Gramado”.
· Mas do mobiliário criado por Elisabeth Rosenfeld, nasce também o Artesanato de Gramado.
· Que por sua vez, fomenta o Festival de Cinema
· Que traz o Chocolate
· Que traz a Malha
· Que impulsiona a Gastronomia
· Que inspira a criação do Natal Luz
· Que faz gerar novos Eventos
· E uma das ruas mais com Metro quadrado entre os mais caros do Brasil.
Tudo isso gerado porque alguém não viu crianças sujas e doentes: Mas viu possibilidades e nem se deixou incomodar pela presença de quase mendigos à sua porta.
Transformou lixo em luxo.
Transformou materiais em sonhos.
Deu valor ao que era simples e simplificou o que era intangível.
Tudo isso porque barro, madeira e lã, nas hábeis e suficientemente capacitadas mãos, foram transformados pelo Design.
Esta foi a primeira história.
Parafraseando Gonçalves dias: Senhores: EU VI!
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A Segunda história não é menos importante do que a primeira.
Havia um lugar onde a riqueza brotava da terra. A terra era sua riqueza, mas nela nada se plantava, porque a terra era generosa e boa, e tudo dava. Especialmente madeira.
· Havia um lugar onde a pujança economica fez seu apogeu, e neste apogeu brotou cultura, arquitetura, artes, política e uma sociedade rica.
· O tempo porém fez cobranças. E cobrou caro pelo aluguel da terra. Cobrou caro pelo consumo de suas riquezas.
· E cobrou caro também por aquilo que não foi plantado, mas foi dela tirado.
· Aquilo que se planta na terra, da terra haverá de brotar.
· Aquilo que se semeia sobre a terra, o vento leva, a chuva lava e o tempo apaga.
· O melhor que se planta é aquilo que fica entre a terra e o vento. Entre o palpável e os sonhos. Entre o material e o imaginário.
· A melhor de todas as sementes que se pode plantar, chama-se cultura.
· A melhor entre as melhores de todas as culturas que se pode plantar, chama-se esperança.
· Semeia-se não nos campos, mas a partir destes. Semeia-se nas mentes, semeia-se nas mãos. Semeia-se nos pés e semei-se sobretudo, na alma.
· A melhor de todas as sementes que se pode plantar, chama-se trabalho.
Por que eu conto esta segunda história?
Porque conheci uma nova Elisabeth Rosenfeld, muitos anos depois de ter conhecido a primeira.
· Não é uma artista plástica. Mas é uma visionária.
· Não tinha habilidade inata para erigir formas ou arte.
· Mas teve sensibilidade e arrojo para reconhecer e buscar quem as tivesse.
· Não sabe entalhar a madeira.
· Mas sabe o valor que a madeira tem nas mãos de quem a entalha.
· Não conhece a refinada técnica de moldar a cerâmica.
· Mas sabe moldar mentes com seu ímpeto e coragem de mudar, criar e fazer gerar empregos, construir sonhos e erigir culturas.
Assim se modifica uma sociedade a partir dos sonhos.
Assim se modifica uma sociedade a partir do Design.
A Shelves do Brasil nasceu do sonho de uma empreendedora: Edna Pucci.
· Mas brotou de um determinado trabalho de equipe.
· Uma pequenina empresa que nasceu de uma tarefa dada a um Designer: CRIAR UMA GRIFFE.
· Edna não queria nada inferior ao melhor. Não o melhor, mas o diferente. Não o diferente, mas o único. Não o único, mas o inusitado.
Quando recebemos o desafio de transformar a matéria prima de Lages, terceira maior produtora de madeira de pinus do mundo em florestas plantadas, havia uma desafio maior de todos os que tivéramos até aquele momento:
· Criar, era pouco. Inovar, o indispensável. Mas faltava mais. Faltava o escopo, o motivo, a espinha dorsal de um produto. Faltava a alma, faltava a essência. Faltava o conceito.
· Fui buscar então na história da minha fonte.
· Fui buscar na história que eu mesmo havia vivido.
· Fui buscar no modelo de Elisabeth Rosenfeld, a mulher que nunca teve filhos naturais, mas gerou filhos culturais e profissionais. E a partir deste modelo, onde não é o produto e o desenho o mais importante, mas a mão de quem o gerou, nasceu a primeira coleção a OPEN. E depois a segunda, a CARRETEL. Mas mais que duas coleções, mais do que formas, cores e desenhos, o que de mais importante foi gerado neste lugar, foi a formação de pessoas. De profissionais. De criadores. De artesãos. Todos, mas todos, comprometidos com a qualidade do que fazem.
· Mais do que as forms, cores e produtos, o que de mais importante foi gerado aqui, foram os mais de vinte empregos em apenas um ano de existencia.
· Com dificuldade. Com dureza. Com todos os tropeços possiveis que o inimigo daqueles que desejam transfomar a sociedade coloca no caminho destas pessoas.
· O que fazem os empreendedores, não é o melhor que existe. O que faz a Shelves, não é o melhor que existe. Há muito por crescer.
· Não é o melhor que há. Mas é o melhro que tem.
· Não é o melhor do que se faz. Mas FAZ. E fazer, faz a diferença para quem precisa de um emprego melhor.
Esta é uma sociedade comprometida com a paixão pelo seu trabalho.
Esta é a sociedade que se transforma a partir do Design.
Imagine um mundo sem o deslizar das formas e das texturas.
Imagine um mundo sem as cores que Deus espargiu pela Natureza.
Dificil imaginar.
Imagine que cada árvore plantada para servir ao homem, possa servi-lo da melhor forma.
Imagine que cada árvore plantada, e depois colhida, não gere apenas tábuas, cercas, moirões, colunas...
Mas imagine que junto de cada árvore possa haver um emprego.
E imagine que cada emprego gerado, é um moirão de cerca a menos nas casas de sua cidade.
É uma cela de prisão a menos. É um lar a mais.
Imagine ainda que junto de cada árvore possa haver um banco de escola.
Que junto de cada árvore possa brotar um talento.
Que junto de cada talento possa a um cidadão.
Que junto de cada cidadão, possa brotar uma nova sociedade.
Que da nova sociedade brotem valores. Brotem cores, brotem raízes.
E das raízes, uma sociedade rica.
Porque este deve ser o compromisso de quem tira da terra uma única árvore que seja.
Uma única folha.
As árvores podem ser plantadas por poucos.
As árvores podem ser colhidas por poucos.
As árvores podem ser divididas por poucos.
Mas o DESIGN pode fazer com que seja isso tudo aproveitado por muitos.
Possam os seus efeitos serem multiplicados e distribuídos a muitos.
· Uma árvore como tal é vendida a um valor irisório. Uma commodity e nada mais.
Mas A mesma árvore revestida com design vale 100 vezes mais.
Gera 50 vezes mais empregos
Gera 20 vezes mais impostos
Chega a muito mais pessoas
E revoluciona a sociedade para a qual foi gerada.
· Gerar riquezas com mais justiça social.
· Gerar empregos dignos
· Gerar beleza
· Isso é o Design.
· É isso que gosto de fazer





