Postagem em destaque

Tendências e Empreendedorismo - Gramado como Modelo Palestra

terça-feira, dezembro 14, 2010

Memórias dos eventos de Gramado - I
Festival de Cinema - Fearte - Festival de Teatro Estudantil - Grêmio Machado de Assis
Pacard



Não tenho o menor interesse em me tornar historiador minucioso dos Festivais de Cinema de Gramado. Nem lembro com exatidão das datas que ocorreram alguns episódios, mas lembro dos episódios em si. Lembro também de outros eventos com os quais tive alguma relação, seja na condição de coordenador ou colaborador, ou como participante convidado ou pela porta de trás (penetra). São histórias pitorescas, que não tem nenhuma intenção de macular os personagens, antes um divertido compêndio de recordações de minha juventude em Gramado.

Os primeiros  eventos de que lembro ocorreram nos verões perfumados de Gramado, onde passei a maior parte da vida. O principal era a Festa das Hortênsias, que ocorria creio que nos meses de Dezembro ou Janeiro, em datas alternadas. Não me saem da memória o perfume das hortências azuis que alcatifavam as colinas, as ruas, as frentes das casas em toda a cidade. Associo o  clima temperado, as manhãs frescas e as tardes quentes ao gosto de melancia, cujo perfume quando cortada também era lembrado ao cortar a grama dos jardins.
Um dos espetáculos de que mais gostava era da Esquadrilha da Fumaça desenhando hortênsias no céu, enquanto misses desfilavam sobre carros alegóricos para delírio da multidão em torno da avenida principal. Penso que os anos eram por volta de 1967, 68. 
Outro evento pertencente à programação eram as corridas de carros antigos, as "baratas" ou "carreteras". Lembro de um nome de pilot famoso: Catarino Andreatta. Um "às", ídolo da mulherada e da rapaziada que sonhava pisar fundo numa "carretera", pois o máximo que conseguiam era acelerar as DKW's, os Simca Chambord, os Aero Willis, as Vemaguetes e claro, os "Fucas". Rural Willis era o carro de passeio das familias medianas e como eu gostava de andar nelas. Lembro do Marcilio Cardoso (Tio Março), pai do Alexandre, Caetano e Manoel Inácio, que enchia sua Rural com a gartotada e saía a passear pela cidade. 
E as inesquecíveis provas hípicas na Carriére Municipal, eram belíssimas. O local era todo adornado com nilhares de hortensias que floresciam á volta do prado onde eram realizadas as provas, além dos ornamentos burlescos próprios do evento em si.
Era montado um pórtico à entrada da cidade, que recebia um séquito de cavaleiros, frenteados pelos Dragões da Guarda da Brigada Militar, seguido pelos cavaleiros dos CTG's.
Os sorvetes eram vendidos em dois lugares: Café Brasil e Café Cacique.  À noite de um dos sábados, artistas famosos se apresentavam no Lago do Parque Hotel (Joaquina Rita Bier), junto com um balé da capital. Agnaldo Rayol é um de quem lembro bem. As mocinhas quase despedaçaram as roupas do pobre cantor.
Lá por 1969, começou o Festival de Cinema, como um evento complementar da Festa das Hortênsias. Primeiro foi uma mostras, mas quando se tornou oficial, passou a ser um centro  de interesse cultural dos artistas e intelectuais brasileiros, por causa da Ditadura Militar. Nesse tempo, a Censura Federal era temida e odiada, pois eram grupos de civis e militares sem nenhuma formação cultural, que detinham o poder de permitir ou estraçalhar com as manifestações artisticas e culturais da sociedade. O Festival de Cinema era uma espécie de refúgio temporário, pois nesse evento, os filmes ainda não haviam sofrido cortes, e também os próprios artistas aproveitavam o encontro para manifestarem suas bizarrices, como desfilarem nus pelos corredores do hotel, pelas ruas, pelas piscinas da cidade. Ou ainda cometerem mais sandices, como a de um diretor gaúcho que foi apanhado urinando na lareira do Hotel Serra Azul (este mesmo diretor depois foi processado pelo poeta  Mário Quintana por ter invadido sua privacidade, que o poeta declarava ser seu apartamento no Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre, o "Último refúgio de minha virgindade").
No mesmo período, começaram os coquetéis, desfiles e eventos paralelos, muito concorridos dos festivais (creio que até hoje o são. Não sei mais. Há alguns anos não sou mais convidado para estes eventos. Acho que desde que não aceitei mais escrever programas políticos para um candidato e que fui tornado "persona non grata"). Estes eventos eram patrocinados por grandes empresas, que apresentavam desfiles belissimos e mostravam suas coleções.
Num destes desfiles, acho que da antiga "Casa Massom", de porto alegre. Acho que isso foi já em 1977. Eu era "aspone" da Secretaria de Turismo, e nessa função tinha que trabalhar muito. Era o leva-e-traz oficial do evento e minha tarefa era resolver os incômodos e minuciosos pormenores tecnicos do evento (leia-se: de tudo). Isso me dava certo prestígio também, e era respeitado pela equipe, pois mesmo bastante jovem, nunca me prevaleci da função para pisar em quem quer que fosse. Daí tinha certas regalias também. Pois voltando: nesse desfile, eu estava passando pela porta principal do Hotel e vi dois personagens de nariz colado no vidro da frente, mãos nas costas, olhando com curiosidade, a mesma de um menino pobre diante de uma confeitaria. Fui em direção a eles, saí la fora e perguntei por que não estavam lá dentro assistindo ao desfile. "Porque não fomos convidados", foi a resposta! Não tive a menor dúvida. Me investi de autoridade, fiz uma certa reverência e já abrindo uma porta, com voz e olhar firme para o porteiro respondi: "Pois agora são MEUS convidados!" E entraram sem cerimônia, assistindo á programação. Ninguém me chamou atenção por aquilo, embora tivesse circulado pelos bastidores a tal façanha. Quem eram eles? Horst Volk e Romeu Dutra. Criadores do Festival de Cinema e desafetos políticos dos meus chefes.

Os Penetras I



Ser penetra é uma arte que exige muito preparo, dedicação, informação e cara de pau. Eu tinha isso tudo. Não tenho mais. Tornei-me tímido demais para sequer dar um "bom dia" a quem não me cumprimentou primeiro, quanto mais cometer a ousadia de penetrar em algum ambiento festivo sem o devido convite e em alguns caso até o absurdo do exagêro que é a insistência em que eu vá ao evento. Mas não foi sempre assim.
O Festival de Cinema não era apenas um evento. Era O evento. Não estar participando dele de alguma forma era o mesmo que pertencer à casta mais inferior de um pária indesejável.  E os párias indesejáveis não comiam os melhores quitutes. Não participavam das rodas de fofocas mais recentes e o que era pior: não ganhavam as meninas mais  lindas do lugar. E se é que poderia haver algo pior, mas havia, era durante a semana seguinte não ter nada para contar nas rodas de conversa e gabolices da turma.
Fui um afortunado nisso. Nunca tive dinheiro. Nem mesmo tinha um gato pesteado para puxar pelo rabo. Embora trabalhasse desde menino, com emprego fixo e carteira assinada, o pouco que ganhava ia para as despesas da família, com quem eu dividia tudo. Também pagava minhas despesas escolares. Sim senhor. Com 14 anos de idade, eu tinha carteira assinada e batia cartão ponto às 7 da manhã e às 6 da tarde, quando passava em casa, comia um lanche e corria para o colégio noturno, onde ficava maquinando jeito de entrar na próxima festa ou baile do próximo fim de semana. Mas então, dinheiro que era bom, nem pensar. Eu tinha que ser criativo. E era. Talvez eu deva um pouco de minha criatividade a esses ensaios e maquinações divertidas que eram necessários para meu crescimento social.
Como dizia, o Festival de Cinema tinha atrativos especiais. Talvez o melhor fossem mesmo as festas, que sem convite, nem pensar em participar. Eu até pagava o ingresso para os filmes, pois era lá dentro que começavam as informações e eram o ponto de partida do contexto. Não havia graça ver uma mulher se atirando nua na piscina do Serra Azul, se não soubesse que ela era a atriz do filme na noite anterior. Nem havia graça ver um bando de gente tresloucada juntando um político que estivesse presente ( e políticos não faltavam às festas) e atirando o pobre coitado na piscina, para o deleite dos fotógrafos e cinegrafistas das emissoras do Brasil todo, que tinham material para suas páginas de fofocas (contanto que um desses políticos não tivesse ligação com o SNI, pois nesse caso, o infeliz fotógrafo era levado para um cantinho discreto, onde tomava uns tabefes e misteriosamente o filme da câmera saltava fora do equipamento à luz do dia, danificando as provas do trabalho).
O local preferido das melhores festas era a  piscina do Serra Azul (hotel onde eram centralizadoss os eventos paralelos e culturais, debates, e escândalos dos artistas mais afoitos). Era um lugar estratégico, pois ficava numa depressão de terreno à beira da rua, onde no alto havia uma mureta de um metro de altura, pouco menos, e se tornava um anfiteatro natural. Ali se reuniam milhares de pessoas que se amontoavam à espreita e para testemunho de tudo o que acontecia lá embaixo entre as feras e gladiadores.
Certa festa dessas, à noite,  estava acontecendo com o maoir esplendor, e a plebe do alto olhando com avidez para tentar ver algum flagrante. Mas como alguém me disse certa vez que miserável não é o que não tem dinheiro, mas aquele que não tem objetivo ou esperança, eu me recusava a me juntar à plebe. meu lugar era lá embaixo, com a ação, o escândalo, a boa comida e se desse jeito, alguma moçoila mais disponível para me apaixonar por uns tres dias.
A  piscina, que era belíssima, tinha dois níveis, sendo que embaixo havia um bar com janelas de vidro, de onde se apreciavam as sereias no cio, digo, nadando dentro da água morninha, e em cima, além da própria piscina, estava o movimento maior dos convidados e penetras (eu não era o único, quero que fique registrado isso). O acesso ao lugar se dava por um moinho holandês, o único que sobrou do lugar que foi transformado em um centrinho comercial. Entrava-se pelo moinho e descendo as escadas, ascedia-se ao local da festa. Mas ali estava  o problema: o moinho. A guarda pretoriana era indevassável. Ninguem entrava sem um expresso convite, raríssimo, conseguido apenas se fosse um figurão político ou convidado especialíssimo de algum figurão político. E eu não era um figurão político. Pelo menos político eu não era. Mas era uma figuraça. Agia em silencio. Sabia me esgueirar pelas sombras, subir telhados, escoar por baixo das portas, me esconder atrás dos postes e surgir em meio ao nada com uma gargalhada assustadora. Bem. Um pouco menos. Não. Eu não era e nunca fui um vampiro. Nem acredito neles, ou melhor, acredito sim. Até já votei em alguns e ajudei a eleger outros tantos. Mas eu pessoalmente não sugava sangue nem atacava donz..tá. Eu não chupava sangue. E tinha que entrar nessa nesfa em especial. Minha honra de penetra e sócio honorário da SAFURFAC (Sociedade de Amigos Furões de Festas, Aniversários e Casamentos) não poderia ser maculada com a perspectiva de que eu fosse deixado do lado de fora daquele espetáculo.
Tomei então a primeira decisão que se deve tomar nestas horas: tentei entrar pela frente. Passei óleo de peroba na cara e fui descendo as escadas, lógico, encontrando a seguir um portão  com duas pernas, dois braços e uma cara amarrada. Com 1,90m de altura e cara de quem estava com diverticulite mental: O famigerado porteiro, que me barrou, pedindo o convite.  Lógico: eu não tinha convite. Então, sem convite, o moço gentilmente riu, vitorioso e disse que eu não poderia entrar. Sem problema. Bom cabrito não berra. Eu era um bom cabrito. Não berrei. Dei um sorriso e saí dali.
Quinze minutos depois estava eu lá dentro da festa, onde passei a noite toda. Já na madrugada, todos indo embora, também fui. De braços com alguma prenda sonolenta. Ao passar pelo segurança, ele olhou pra mim e disse:
- Mas eu não falei que tu não podia entrar?
- Falou, respondi. Entrar por aqui eu não podia. Mas não deixou claro que eu não poderia sair. Não estou entrando. estou saindo. E dê licença que a menina tá com pressa...
Como eu entrei lá? Bem. Esse é um mistério que não posso revelar. Eu disse que ia contar minhas memórias. Não prometi que iria revelar todos os segredos.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Memórias dos eventos de Gramado - I
Festival de Cinema - Fearte - Festival de Teatro Estudantil - Grêmio Machado de Assis
Pacard


Não tenho o menor interesse em me tornar historiador minucioso dos Festivais de Cinema de Gramado. Nem lembro com exatidão das datas que ocorreram alguns episódios, mas lembro dos episódios em si. Lembro também de outros eventos com os quais tive alguma relação, seja na condição de coordenador ou colaborador, ou como participante convidado ou pela porta de trás (penetra). São histórias pitorescas, que não tem nenhuma intenção de macular os personagens, antes um divertido compêndio de recordações de minha juventude em Gramado.

Os primeiros  eventos de que lembro ocorreram nos verões perfumados de Gramado, onde passei a maior parte da vida. O principal era a Festa das Hortênsias, que ocorria creio que nos meses de Dezembro ou Janeiro, em datas alternadas. Não me saem da memória o perfume das hortências azuis que alcatifavam as colinas, as ruas, as frentes das casas em toda a cidade. Associo o  clima temperado, as manhãs frescas e as tardes quentes ao gosto de melancia, cujo perfume quando cortada também era lembrado ao cortar a grama dos jardins.
Um dos espetáculos de que mais gostava era da Esquadrilha da Fumaça desenhando hortênsias no céu, enquanto misses desfilavam sobre carros alegóricos para delírio da multidão em torno da avenida principal. Penso que os anos eram por volta de 1967, 68. 
Outro evento pertencente à programação eram as corridas de carros antigos, as "baratas" ou "carreteras". Lembro de um nome de pilot famoso: Catarino Andreatta. Um "às", ídolo da mulherada e da rapaziada que sonhava pisar fundo numa "carretera", pois o máximo que conseguiam era acelerar as DKW's, os Simca Chambord, os Aero Willis, as Vemaguetes e claro, os "Fucas". Rural Willis era o carro de passeio das familias medianas e como eu gostava de andar nelas. Lembro do Marcilio Cardoso (Tio Março), pai do Alexandre, Caetano e Manoel Inácio, que enchia sua Rural com a gartotada e saía a passear pela cidade. 
E as inesquecíveis provas hípicas na Carriére Municipal, eram belíssimas. O local era todo adornado com nilhares de hortensias que floresciam á volta do prado onde eram realizadas as provas, além dos ornamentos burlescos próprios do evento em si.
Era montado um pórtico à entrada da cidade, que recebia um séquito de cavaleiros, frenteados pelos Dragões da Guarda da Brigada Militar, seguido pelos cavaleiros dos CTG's.
Os sorvetes eram vendidos em dois lugares: Café Brasil e Café Cacique.  À noite de um dos sábados, artistas famosos se apresentavam no Lago do Parque Hotel (Joaquina Rita Bier), junto com um balé da capital. Agnaldo Rayol é um de quem lembro bem. As mocinhas quase despedaçaram as roupas do pobre cantor.
Lá por 1969, começou o Festival de Cinema, como um evento complementar da Festa das Hortênsias. Primeiro foi uma mostras, mas quando se tornou oficial, passou a ser um centro  de interesse cultural dos artistas e intelectuais brasileiros, por causa da Ditadura Militar. Nesse tempo, a Censura Federal era temida e odiada, pois eram grupos de civis e militares sem nenhuma formação cultural, que detinham o poder de permitir ou estraçalhar com as manifestações artisticas e culturais da sociedade. O Festival de Cinema era uma espécie de refúgio temporário, pois nesse evento, os filmes ainda não haviam sofrido cortes, e também os próprios artistas aproveitavam o encontro para manifestarem suas bizarrices, como desfilarem nus pelos corredores do hotel, pelas ruas, pelas piscinas da cidade. Ou ainda cometerem mais sandices, como a de um diretor gaúcho que foi apanhado urinando na lareira do Hotel Serra Azul (este mesmo diretor depois foi processado pelo poeta  Mário Quintana por ter invadido sua privacidade, que o poeta declarava ser seu apartamento no Hotel Majestic, hoje Casa de Cultura Mário Quintana em Porto Alegre, o "Último refúgio de minha virgindade").
No mesmo período, começaram os coquetéis, desfiles e eventos paralelos, muito concorridos dos festivais (creio que até hoje o são. Não sei mais. Há alguns anos não sou mais convidado para estes eventos. Acho que desde que não aceitei mais escrever programas políticos para um candidato e que fui tornado "persona non grata"). Estes eventos eram patrocinados por grandes empresas, que apresentavam desfiles belissimos e mostravam suas coleções.
Num destes desfiles, acho que da antiga "Casa Massom", de porto alegre. Acho que isso foi já em 1977. Eu era "aspone" da Secretaria de Turismo, e nessa função tinha que trabalhar muito. Era o leva-e-traz oficial do evento e minha tarefa era resolver os incômodos e minuciosos pormenores tecnicos do evento (leia-se: de tudo). Isso me dava certo prestígio também, e era respeitado pela equipe, pois mesmo bastante jovem, nunca me prevaleci da função para pisar em quem quer que fosse. Daí tinha certas regalias também. Pois voltando: nesse desfile, eu estava passando pela porta principal do Hotel e vi dois personagens de nariz colado no vidro da frente, mãos nas costas, olhando com curiosidade, a mesma de um menino pobre diante de uma confeitaria. Fui em direção a eles, saí la fora e perguntei por que não estavam lá dentro assistindo ao desfile. "Porque não fomos convidados", foi a resposta! Não tive a menor dúvida. Me investi de autoridade, fiz uma certa reverência e já abrindo uma porta, com voz e olhar firme para o porteiro respondi: "Pois agora são MEUS convidados!" E entraram sem cerimônia, assistindo á programação. Ninguém me chamou atenção por aquilo, embora tivesse circulado pelos bastidores a tal façanha. Quem eram eles? Horst Volk e Romeu Dutra. Criadores do Festival de Cinema e desafetos políticos dos meus chefes.

sábado, dezembro 11, 2010

Ensejo da manhã
Pacard

Ensejo sublimar o tempo a cada manhã
não sei se para voltar atrás ou caminhar adiante
da névoa clara que dispersa a luz
de meu entender.
São coisas que sinto
algumas eu penso
outras só sonho
por isso tanta vontade de voltar a dormir
para correr atrás e tentar ainda alcançar
um rabinho perdido daquele sonho tão bom
onde eu podia voar.
Muitas vezes voei em meus sonhos
e acordei com a leveza
de quem comeu nuvens no café da manhã
talvez não fossem bem nuvens
nuvens de verdade
pois estas eu sei que não se pode comer
já sei como são
passei muitas vezes dentro delas
e nem era sonho
era avião.
Perdeu a graça por uns instantes
nem todos, confesso
pois da janelinha tão frágil
acima dos algodoais do céu
consigo me ver pulando de nuvem em nuvem
sem medo de cair
e nem é sonho
e estou voando
com um avião enrolado em mim.
Mas gosto dos sonhos
ainda mais
pois neles sou eu mesmo quem alço meu corpo
rumo ao infinito
de onde não quero mais voltar.

sábado, dezembro 04, 2010

CRIATIVIDADE EM RISCO

Pacard

Durante muitos anos fui dominado por uma grande frustração pelo fato de ter me tornado um profissional com grande experiência no que fazia, acompanhada por certo grau de conhecimento teórico também, porém, de forma não convencional, diferente daquela determinada como acadêmica e como tal, vendida ao mercado. E por não ser graduado, me colocava numa posição de inferioridade no exato instante em que me defrontava com outros profissionais da mesma área, gerando uma barreira natural de status profissional.

Os anos se passaram, e fui aprimorando meus conhecimentos teóricos da mesma forma que qualquer outro profissional precisa fazer para não ser deixado de lado palas novas descobertas em seu campo de conhecimento. Imagine um médico que tem um currículum acadêmico brilhante, mas que não lê uma única revista, ou livro sobre avanços na medicina, ou não participa de seminários, conferências, não  faz cursos de reciclagem e não se envolvem com outros profissionais na troca de experiências, e nem mesmo compartilham suas dificuldades com profissionais de outras éras. Este profissional em poucos anos está certamente falido, tando financeiramente, quanto de forma profissional.

Da mesma forma, fiz o mesmo. Não me estribei apenas nos primeiros conhecimento adquiridos em chão de fábrica ou nas pranchas de desenho, seja sob orientação de outros profissionais com reconhecido saber, ou então debruçado sobre os livros, revistas, e a maioria ainda em iidioma diferente do meu, o que me permitiu acrescentar à minha cultura profissional,o domínio de outras línguas, que vieram a me favorecer nos anos que se seguiram, nas viagens que fiz, mas sobretudo como enriquecimento pessoal. E não me contentei apenas em  ler e conhecer mais e mais sobre desenho, arquitetura, design, artes plásticas, pintura, literatura, escultura, alfareraria (modelarem em cerâmica), como também fui conhecer os mistérios das linguas mortas, onde estudei grego ( este em um seminário teológico), latim, e também estudei grafias antigas, treinei alfabetos medievais para aplicação em determinados trabalhos, além de meus estudos de teologia aos quais me dedico desde tenra juventude. Estudei ainda certos mistérios cultivados como tais por sociedades antigas, fiz pequenas e deliciosas incursões no campo da matemática, onde conheci Fibonacci e os pitagóricos, que me levaram a desnidar a Divina Proporção, com a qual os renascentistas eruditos consumiram anos de suas vidas voltadas ao conheccimento e ao saber.

Seria cansativo enumerar todas as coisas que fiz e ainda faço para enriquecer meu limitado, porém  livre universo do conhecimento, e de tudo filtro o melhor e trago ao meu campo de atividade profissional, o Design. Não faço design simplesmente porque preciso pagar as contas, mas faço design porque preciso viver e viver em meu entender não contempla apenas respirar, comer, dormir, amar e ser amado, mas estabelece um relacionamento de gratidão com Deus, meu Criador e Senhor, que me permitiu e continua misteriosamente a permitir que eu cresça mesmo que seja em meu entardecer da vida, através de minhas criações e sobretudo de minha liberdade de expressá-las, seja por meio de meus traços, ou por meio daquilo que transmito aos que vem após minhas pegadas, não para que continuem a me seguir, mas para que passem a me acompanhar, não atrás de mim, mas ao meu lado, porque assim como meu conhecimento não é limitado a apenas ao que eu ja conheci e esteja aberto a tudo o que ainda quero e posso conhecer, mas porque legar o que nos foi legado é uma missão divina.

Recebo com uma trave no olho a idéia que ainda hoje as escolas que deveriam provocar design, se limitam a ensinar design. As instituições que deveriam permitir que o design aconteça como consequencia da soma dos conhecimentos, seja estanque pelo ritualismo dos procedimentos formais e pelo entrave dos conceitos, onde a um educador não seja permitido opinar sobre a qualidade do que ensina, sob o risco de denegrir imagem da instituição. Ora onde é que está o valor do educador, senão na expressão de seus conhecimentos? O que é uma instituição senão a soma dos seus educadores e o que é o valor do educador senão a sua liberdade de repassar seus conhecimentos que são  unicamente seus e não da instituição?

Concordo que deve haver uma rota e um destino quando se trata de formalização e formatação do ensino. Mas não concordo em absoluto que um educador respeitável seja dissociado de um profissional ainda mais respeitável, e em meus quase quarenta anos nessa jornada entendo que só se fazem profissionais confiáveis com liberdade de expressão, tanto de seus próprios conhecimentos, sejam eles empíricos ou intuitivo, como pela experimentação dos conhecimentos de outrem, não importando a forma como tenham chegado ao educador, seja pelos bancos acadêmicos, ou pelo recôndito silencioso das bibliotecas, receptáculos do saber ao longo das civilizações. Discordo em grau, gênero e número de tutela na criatividade e nos conceitos e instrumentos que exploram os mistérios da criação e dos métodos diversos que permitem a diversidade das escolas deste conhecimento no universo do design.

sexta-feira, dezembro 03, 2010



Folhas ao vento
Pacard

Como folhas ao tempo
pairando no vento
do mar ao luar

sou plena saudade
que voa sozinha
nas brumas do ar

como folhas na alma
que flutuam com calma
ao entardecer

sou a pluma mais leve
com todas as cores
da aurosa dourada
num campo de flores
da primeira estrela
ao anoitecer.

Sou o tempo e a vida
sou a lida marcada
sou a voz pela estrada
sou a garganta da noite
sou o açoite do mundo
do olhar mais profundo
do sonhar mas sereno
sou grande, sou pequeno
sou castigo sem dor
sou a flor que perfuma
sou a bruma mais branca
sou a areia infinita
sou a ave que grita
sou o céu sem estrelas
porque todas caíram
quando do alto te viram
em teu caminhar.

Sou os passos que passam
contemplando teus passos
que acompanham os meus
no doce compasso
que me faz contemplar

E calado contemplo
no templo
da vida
passos, compassos
e pensamento.

segunda-feira, novembro 22, 2010

Mobiliário personalizado. Seu DNA na criação. Criações exclusivas. Diferentes. Contemporâneas e românticas. Ambientes inteligentes.
48 9961 1546 - dpacard@gmail.com - skype: paulo_cardoso

sábado, novembro 06, 2010

O CASO DA SOGRAJul 3, '05 9:39 AM
for everyone
Demerval não era cego. Demerval não era louco. Demerval sabia tudo o que estava acontecendo com sua vida, a começar com sua casa. Ou, melhor, a casa da sogra, onde morava.Naqueles tempos bicudos e com salário de professor de geografia em escolinha publica, Demerval sabia que era um abençoado em ter onde morar sem pagar aluguel, condomínio nem IPTU. Por isso nunca reclamava. Chegava sempre no mesmo horário, saía na mesma hora e comia as mesmas coisas. Sempre. Todo dia. Menos domingo, que tinha salada de maionese com carne de panela e spaghetti. Tudo feito pela sogra, pois afinal, demerval morava na casa da sogra.Não era uma sogra ruim. Era até boa. Muito boa, pra dizer bem a verdade. Era diferente do conceito pré definido que devem ter todas as sogras. Ainda jovem, esbelta, bem cuidada, a sogra(por razões éticas, prefilo me referir à ela apenas pelo título: sogra) era uma mulher fina e delicada. Tinha as mãos ainda macias, a pele firme e um belo sorriso. Não era um sorriso qualquer, mas costumava sorrir com o olhar. Sorria quando andava e sorria ao permanecer calada. E ele não deixava de perceber isso, o que também o fazia emitir um orgulhoso e discreto sorriso.E assim passavam os dias de demerval. Pode-se dizer que, embora vivendo na casa da sogra, porque a doçura dela o deixava feliz. Demerval era feliz. Mesmo tendo sido deixado pela mulher havia mais de cinco anos. Restara-lhe o verdadeiro amor de sua vida: a sogra. Ela tinha sido sua professora de primário. Sempre linda e meiga. Um encanto. Com oito anos de idade atrevera-se a pedi-la em casamento. Ela respondeu um esperançoso “talvez, um dia”. E ele acreditou. Os anos se passaram, ela se casou..com outro. Era mais velho que Demerval, mais rico, tinha um carro..e Demerval uma bicicletinha aro 24..impossivel de competir. Mas, o tempo era o Senhor da razão, deixa estar, pensava Demerval.. Choveria na horta dele.O tempo passou. Demerval nunca se casou. A professora teve uma filha. Linda, lourinha, olhos azuis..que cresceu, tornou-se uma bela mulher. Levada, arteira, atrevida. Tudo estava saindo perfeitamente de acordo com o que planejara Demerval.Um homem mais velho, cheiroso, alegre, decente, e ainda conhecido desde a tenra infância da professorinha, nada mais perfeito. E Foi assim que Demerval, depois de muitas flores, presentinhos e presentões, delicadezas, se casou com a filha da sua professora.Um gentleman. Um impagável cavalheiro. Cavalheiro demais. Cercava a esposa com flores. Mas ela queria mais. No âmago da sua juventude feminina, ela queria emoção. Ele dava presentes. Para a esposa..e para a sogra. Convidava a esposa para um jantar íntimo à luz de velas: ele, ela..e a sogra. A sogra adorava. Aquele menino de ouro não a enganara. Doce e cavalheiresco, como o fora sempre desde a primeira série. Era o genro perfeito.Mas não era o marido que sua filha sonhara. Não que fosse descuidado com suas obrigações. Não era. Era pontual, servil, gentil e delicado. Até que um dia ela não aguentou mais e foi-se embora. Queria mais. Queria aventura. Queria um homem normal. Ela se casara com um genro mas nunca teve um marido. Puxa vida. Por que ele não poderia ser só um pouquinho parecido com os outros? Deixar a cuéca atirada no corredor..as meias na mesa de jantar, arrotar à mesa..roncar..dizer palavrões. Por que ele não faltava pelo menos uma vez com o respeito para que ela tivesse uma única oportunidade de jogar tudo na cara dele?Mas não. Demerval era metódico. Matemático. Amoroso. E nem queixar-se à mãe ela podia, porque iria dizer o quê? E logo pra quem. Daí foi-se embora. Só o que sua dignidade machucada lhe permitiu fazer foi deixar uma carta de despedida..em branco. E Demerval ficou só..com a sogra.Não. Demerval nunca mais ousou pedir a professora em casamento. Ela já dissera seu talvez. E esse “talvez” era a certeza de que Demerval necessitava para ser feliz. Mesmo que ao lado da sogra

quarta-feira, outubro 06, 2010

O Tempo
Pacard

"O tempo não me dá tempo de bem o tempo fruir, e nesta falta de tempo, nem vejo o tempo fugir", diz uma antiga quadrinha poética, que falava de uma forma rimada da correria do mundo hodierno. E em se considerando que essa quadrinha tenha mais de cem anos, como seria escrita em nossos dias?
Quando consideramos o tempo, não estamos falando do tempo de Eisntein, que o correlacionava com o espaço, mas estamos falando daquele lugar em nossas vidas que dedicamos a nós mesmos, ao nosso prazer, à nossa companhia, seja através de nossa própria companhia, ao que alguns a chamam de solidão, ou mesmo na companhia de alguém, a quem chamamos de amigo, amor, afeto ou até mesmo desafeto, pois o tempo compartilhado é um tempo em dobro dentro do mesmo espaço de horas.
A noção de tempo é sim relativa, não ao espaço percorrido num mesmo compasso das horas, mas à sensação daquele instante, pois assim como o tempo que falta para o fim de uma partida de futebol ou basquete é diferente para quem está vencendo por um ponto ou gol, ou quem ainda tem chance de recuperar o ponto perdido nos derradeiros instantes. O tempo para quem sente dor é diferente do tempo daquele que vê a dor chegando de forma imponderável e a cada instante que passa faz por aumentar a angústia que o espera,  enquanto o primeiro não vê a hora que seu sofrimento cesse. Seu tempo não é o mesmo tempo do outro. Não podem ambos os tempos serem medidos por horas, mas por sensações.
Da mesma forma, dizem os físicos que o tempo começou a existir com o Big Bang. Os Criacionistas poderiam afirmar que teria sido com a Criação. Seja como for, não posso concordar com nenhum deles, porque teria que admitir que antes da Criação não houvesse tempo ainda. Havia. O que não haviam eram parâmetros para comparação, porém isso não torna a existência do tempo num estado caótico, porque seria como admitir a inexistencia do nada. Existem, ambos. O tempo e o nada, no mesmo lugar e com o mesmo princípio e sob o mesmo fundamento.  O tempo e o nada são mais propícios à existência do que o futuro ou o presente, pois o que é o futuro, senão o passado que ainda não aconteceu: Ou o passado, não seria o futuro ao inverso, ou o futuro antes que viesse a acontecer? E não seria  ainda o presente, a linha imaginária e tênue que separa o passado do futuro? E não seria esta linha ainda mais tênue do que a linha do horizonte: Porque o horizonte é possivel que seja mostrado de maneira virtual, porém o passado e o futuro nem mesmo podem ser demonstrados senão por elocubrações pictóricas de personagens ou indumentárias, ou formas de arte ou arquitetura, que remeta a um estado de tempo ou outro, mas continuam a ser menos palpáveis ou ou outro do que o mencionado horizonte. E mesmo sendo futuro e passado, ou até o presente, que é o único estado de tempo que podemos ter percepção, mesmo sendo o mais tênue e frágil, estados imaginários de tempo, ainda assim permitem ao tempo que sempre tenha existido, pois não seria o passado um infinito atrás e o futuro, um infinito à frente?
Vamos admitir que o tempo tenha realmente iniciado com o princípio da matéria, mesmo assim, se a matéria existe porque vence continua luta contra a anti matéria, não poderia também ser o tempo uma antítese de si mesmo cujo epicentro seja o exato instante em que tudo deixa de ser nada e passe a se expandir formando a massa infinita do universo, e que atrás de si no inverso do quadrado das distâncias elevado à razão infinita sobre uma base também infinita (n elevado à potência menos n), e que na mesma distância e proporção se encontre com seu inverso dentro de um espelho esse universo inverso cuja forma tenha sido o próprio tempo?
Creio que estamos presos a um tipo de eternidade controlada pelo próprio tempo que se entrecruza com o espaço, que também dizem ser finito, ou infinito condicional à capacidade humana de calcular. Penso porém que Einstein teria se limitado a esses dois finitos com o seu tempo, e que em meu raciocinio de tempo, esse tempo é o que excede aos limites do infinito cósmico e não o tempo integral onde estrelas e partículas de luz e radiação possam ser contadas ou  fracionadas. Penso que  o tempo anterior ao tempo de Einstein seja o tempo verdadeiro, pois o tempo da física pode ser acelerado ou retardado pela velocidade da luz. É um tempo prisioneiro de convenções, enquanto o tempo ante pós seria um tempo multidirecional, verdadeiramente infinito. O tempo de Deus. Absoluto e pleno.

segunda-feira, outubro 04, 2010

O Bobo da Corte
Pacard


O Brasil dormiu rindo e acordou estupefato. Esperava-se uma lavada de votos de Dilma sobre Serra, porque nisso apostavam os institutos de pesquisa. Lêdo engano. Erraram já outras vezes,e vão errar tantas mais quantas forem as vezes em que direcionarem pesquisas de acordo com suas preferências eleitorais. Mas o Brasil acordou com um ar de interrogação. Quem se julgava invencível, viu que não é. A quem se julgava inapto,  deu-se crédito e eleitos foram. Quem resolveu brincar com seu voto,o fez com a maior seriedade possivel. Palhaço por palhaço, chamaram um profissional. Votaram num palhaço para mandarem um recado aos demais, dizendo: "Olhem aqui, palhaços! Quantas vezes brincaram com nossas vidas! Quantas vezes fizeram chacota com nosso dinheiro, com nossos destinos, com nossa segurança, com nossa educação, com nossa saúde, que desta vez achamos que gostariam de provar de seu próprio cálice! Mandamos um palhaço de verdade para ensiná-los a fazer o povo rir como se deve!".
O povo de São Paulo teve uma oportunidade imperdível: jogar lama na classe político. Elegeram um palhaço profissional. Que me perdoe pela rudeza das palavras o nobre Deputado eleito, Tiririca. Aproveite a fama nessa outra vereda, pois você é com certeza a próxima vítima do esculacho interno. O povo não te elegeu porque te ama apenas, mas te enviou numa missão sagrada, quixotesca e suicida: você é a virgem enviada para aplacar a ira dos deuses sedentos de vida, porque são deuses mortos.  Você é o bufão, o bobo da corte, aquele indivíduo que fazia mirabolantes malabarismos e se fazendo de doido, dizia tudo o que o povo pensava ao rei, e saia de glorioso, aplaudido pela majestade.
O povo te conclamou, Tiririca, para rir da cara da classe política. te chamou para que vás vestido de palhaço ao Congresso Brasileiro e lá erres a gramática, porque só rindo assim perceberão, talvez, os que são filólogos naquela arena, os que são eruditos e os que são eloquentes, que o povo não consegue mais compreender os ruidos que saem daquele lugar. Só rindo de ti, perceberam que nada mais és do que um espelho da sociedade brasileira, antes turvo pelas "maracutaias", e agora na limpidez de teus gracejos, enfrentes os majestosos titãs da política brasileira, do alto de uma tribuna.
Serás devassado pela mídia. Enriquecerás ainda mais os que, como tu, fazem do humor a arma de protesto e o alarme do estado crítico da classe política. Você entrou no fogo e não há como não sair chamuscado disso. Porém, se um homem do povo foi capaz de, também falando trôpego, se auto proclamar o maior estadista como nunca antes, nada te impede de dar uma avalanche de tapas de luva, te preparando, te cercando de gente séria sintonizada no coração dos que colocaram naquela tribuna, possas mostrar que a sinceridade com que dizes nada conhecer de ppolítica, também possa se educar para envergonhar os eruditos.
Eu não votei em ti. Não votaria nestas circunstâncias, pois não acredito em achincalhes com o poder que emana do povo. Mas também nada me impede de reescrever este chamado à consciência, não apenas dos que te elegeram, como daqueles a quem foi dado o recado, se fores capaz de fazer reverter este pré conceito que fomos educados a ter dos que se dizem políticos, mas que são na verdade rufiões e energúmenos parlapatães em nome da gente boa deste país.
O Brasil que vota em palhaços é sim um país sério e é tão grande esta seriedade, que é capaz de colocar um dos seus entre eles, mesmo que lhe custe a honra ou algo mais.

domingo, outubro 03, 2010

O jeito de fazer democracia
Pacard

Fui hoje cedo justificar meu voto, pois por completo desencanto com a classe política, um dos motivos, ou porque nos anos anteriores era um bom motivo para uma viagem à minha terra, cometi o descuido de não ter feito até agora a transferência de meu domicilio eleitoral.
Com a papeleta na mão e sem caneta, imediatamente descobri um animado grupo de pessoas, e meu detector de canetas imediatamente localizou meia dúzia de canetas organizadas lado a lado numa mesa de refeições da escola que cedeu "democraticamente" espaço para a votação. Imediatamente as pessoas me fizeram sentir bem vindo ao grupo e em poucos instantes, enquanto preenchia meu formulário, comecei a discorrer alguns assuntos pertinentes à democracia, sem falar em política, até porque, havia um policial a cinco metros de onde estávamos, com cara de poucos amigos. Lembro quanto a isso, que quando eu era mesário, (e cumpri essa função por muitos anos, com certa alegria até, e me sentindo importante para o exercício da democracia), a Lei previa que a Polícia Militar não poderia estar a menos de cem metros da Seção Eleitoral. Hoje, se bobear, quase entram junto. Novos tempos? Ou apenas um sinal do que pode vir por aí? Não sei. Mas enfim, o assunto discorreu em torno do documento eleitoral. Lembrei que o Brasil é o único país, do qual tenho conhecimento, que possui um sistema "democrático" que nos obriga a votar, ou ao menos a justificar a ausência do voto. Daí, por sermos obrigados a isso, a Justiça Eleitoral nos concede um documento que nos habilita ao voto. Mas que não é aceito no local de votação, porque quando foi confeccionado, achou-se desnecessário que contivesse uma foto do eleitor.
Mas, isso não é tudo de discrepante que se pode encontrar. Por exemplo: posso justificar minha ausência por internet. Fantástico! Moderno! Eficiente! Tão eficiente, que posso estar ao lado da seção eleitoral e dizer que estou na outra ponta do país, e caso minha localização seja rastreada pelo meu IP, é simples: nomeio um amigo, parente de confiança, para que o faça por mim, e pronto! Cumpri com minha obrigação de cidadão: enganei o sistema! E posso ficar despreocupado, pois se algum dos candidatos que eu me recusei a votar aprontar alguma falcatrua, temos o Judiciário que elucida as dúvidas e tira os corruptos de circulação.
Bem, não é exatamente do modo convencional que fazem isso, pois uma votação empatada depois de ansiosa expectativa dos eleitores diante de eloquentes debater jurídicos, a Suprema Corte da Justiça decide que...quem deve decidir é o povo. Felizmente o povo sabe decidir e sabe muito bem escolher seus representantes junto ao Parlamento e ao Governo: e lá colocam Tiririca, Juruna. Clodovil, Enéas, Severino, Roriz, Arruda, Malvadeza e tantos outros que tão bem caracterizam a política e o jeitinho brasileiro.
Bem verdade que não foi De Gaulle que disse que esse não era um país sério. E daí? Não importa quem disse, mas que falou pouco e bonito, ah falou.
Aprendi a lição. Vou imediatamente, assim que permitido, transferir meu título e procurar conhecer com mais atenção os candidatos. Talvez meu voto continue a ser único, mas minha opinião pode multiplicá-lo.
Quem viver, verá!

sábado, setembro 11, 2010

Terceira Felicidade
Pacard


Meu grande e querido amigo, Pastor Anísio Chagas, é a pessoa que conheço, que maior exemplo traduz, de que idade é apenas uma convenção, e um desalinho do tempo, mas não uma sentença final. Anisio, aos oitenta anos ainda é capaz de fazer brilhar o olho de quem quer que seja, ao falar de seus projetos, que ele não vê como sonhos, mas como aspirações, metas, desafios e sobretudo, oportunidades.
Há muitos anos que o conheço. Da primeira vez que o vi pregando na igreja do IACS (instituto Adventista Cruzeiro do Sul), em Taquara, RS, não gostei do que ele falou em seu sermão eloquente: convocava a assembléia a se tornar despreendida e fazer donativos para a construção da igreja do colégio, cuja planta ele mesmo participou dos detalhes, e se encontra lá hoje, imponente, provando que o entusiasmo de um homem somado à sua Fé no Deus Criador, tudo pode. Mas eu não gostei de seu sermão. Falava demais de dinheiro e eu não sou diferente de ninguém: tenho horror que falem em dinheiro, principalmente se for mexer com minha consciência. Dinheiro é meu, consciência é minha e pronto. Assim pensava eu.
Os anos se passaram e acabei conhecen Anisio mais de perto. Nos tornamos amigos. Mais que isso: nos tornamos cumplices de ideais. Aprendi a sonhar coisas fabulosas com ele. Certa vez, consegui que uma comunidade doasse um hospital para a nossa organização, e lá estava o Anisio com os chefões visitando o hospital e se reunindo com a direção do mesmo, porque era uma forma de se verem livres dum abacaxi, que é um hospital de interior. Não deu negócio, porque nossa Organização logo anunciou, na mesma reunião, que transformaria aquele pequenino e doentio hospital numa clínica modelo, com ampliações imediatas e aquisição de sofisticados equipamentos, ampliação do quadro clínico e tudo mais. Que tristeza: quando ouviram isso,os administradores do hospital se entreolharam e viram que não estávamos de brincadeira. E imediatamente começaram a tecer exigencias: Se vão ficar com o hospital, tem que aceitar tambem o cemintério, e uma lista imensa que começou a aparecer. Acabou ali a conversa. Entre organização e aquele hospital. Mas começou ali uma grande amizade entre Anisio e eu.
Eu frequentava cursos em Porto Alegre, e meu hotel era a casa do Anisio. Meu desjejum era o baquete da Jurema (nunca chamei o casal de senhor ou senhora. Entre amigos esse tratamento é dispensado). Assisti, ao seu lado, grandes decisões sendo tomadas no rumo de nossa Organização. Ele como intermediário. Eu como expectador atento. Por sua influência fiz cursos de homilética, liuderança, e tantos outros. E também por sua influência, recebi convites da Organização, por cuja indicação, sempre fui tratado com respeito e recebi atenção. Fiz palestras, montei projetos sociais, e por ironia, àquele mesmo hospital, fui chamado anos mais tarde para montar um plano emergencial, porque estava falindo. Fui lá e montei. Ganhou fôlego por mais alguns anos. Do hospital, não sei mais, mas o Anisio continua firme com seus sonhos, ou melhor com seus projetos.
Recentemente ajudei a montar mais um projeto que ele sonha e ora todos os dias. Fala e encanta ounvites, todos os dias. Investe energia todos os dias: o MAANAIM, que em hebraico traduz "Acampamento de Deus". Maanaim do Anisio é uma belíssima área verdade que possui no Vale do Itajaí, onde se dispôs a doar para a instalação de um CENTRO DE ORAÇÃO, ao modelo dos encontrados na Coréia, que segundo Ansio, é o pais que tem o maior número de centros de oração no mundo. E a grande inspiração de Anisio pela Coréia é seu gritante desenvolvimento humano, econômico e social. Um povo que ora é um povo que prospera.
Anisio me deu a honra de realizar o casamento de meus dois filhos, e a alegria de me fazer verter lágrimas pela apresentação de meus tres netinhos. Mas Anisio meu deu algo maior: a certeza que a idade é apenas um detalhe do tempo, pois quem ama a vida e acima dela Seu Doador e Mantenedor, não tem limites para viver, instruir, educar e sonhar.
Quero divulgar o MAANAIM, sonho derradeiro do Anisio, para me recompor do primeiro sermão que ouvi dele pedindo dinheiro. Hoje eu sei pra que era: Anisio foi um dos maiores construtores de igrejas que já conheci. Vive de forma modesta, mas chegar em sua casa é pegar uma senha para o paraíso, tamanha a hospitalidade com que se é recebido daquele lar.  Sua despensa está sempre pronta a servir um lanche, uma refeição ou um suco, que mostra que o resultado de uma vida firmada em sonhos e passos para alcançá-los, é apenas  a alavanca para que quando a velhice chegar, todas estas realizações sejam os propulsores para que não venha a parar jamais. O céu espera por gente assim. A terra precisa de gente assim. Eu tenho o prezer de ter gente assim em meu coração e minhas orações.