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Tendências e Empreendedorismo - Gramado como Modelo Palestra

domingo, setembro 05, 2010

  1. TWITTANDO 2
    Política é como uma rosa. Viva, exala perfume. Morta, olor putrefato. No alto, em cores, as pétalas, que são as palavras. No caule, espinhos7:32 AM Sep 4th via web
  1. Quero mandar um recado à justiça cubana: Cuemo puedo enbiarles tres navios de cabrones politicos que piensan diferente del regímen de Fidel?11 minutes ago via web
  2. Quero mandar um recado à justiça iraniana: Como faço para enviar tres navios de políticos adúlteros para serem julgados aí?14 minutes ago via web
  3. Atrapalhando a história:No tempo de Salomão, o rei tinha 700 esposas, 300 amantes, 666 cavalos e um burro. o próprio salomão.16 minutes ago via web
  4. www.pacard.blogspot.com Aproveita e passa lá também. Tem beus blogs.22 minutes ago via web
  5. www.pacard.carbonmade.com Aproveita e passa por lá. Tem meus trabalhos.24 minutes ago via web
  6. Opto pelos que não se estribavam na ciência, mas buscavam pela simplicidade da fé entender apenas o rumo dos seus passos na noite estrelada28 minutes ago via web
  7. Hawking e darwin serão lembrados pelo que foram capazes de destruir da fé na humanidade. Ventos ruidosos que levam areias.30 minutes ago via web
  8. Interessante que Hawking não se atreve a dizer que Deus não existe, mas faz pior: existe, mas é um inútil, pois o universo se auto criou.32 minutes ago via web
  9. Stephen Hawking chegou à conclusão, por sua magnitute sapiencial e grande poder de observação do universo que Deus não criou nada.33 minutes ago via web
  10. @GutoIndio Quando o boi souber a força que tem deixa de puxar carroça. Designer só precisa conhecer a lei 9610/98. E saber se vender.39 minutes ago via web in reply to GutoIndio
  11. Cada país tem o povo que merece. Mas nem sempre o povo tem o país que precisa.about 1 hour ago via web
  12. Quer manter a mente ocupada e espaço na mídia? Fique na oposição e defenda factóides. Os intelectuais adoram. O povo não tá nem aí.about 1 hour ago via web
  13. Quer se perpetuar no poder? Mantenha o povo com esperança. Como? Minta sempre, o quanto puder, a todos, o tempo todo. Está dando certo no ptabout 1 hour ago via web
  14. Mas quer MESMO criar uma revolução? Arrume um mártir e incite um idiota a difamá-lo. Depois execre o idiota também.about 1 hour ago via web
  15. Quer criar um ditador? Crie inimigos e ponha na boca do povo que eles tem culpa da miséria porque são ricos.about 1 hour ago via web
  16. Quer criar uma ditadura? Aqui vai a receita (começa pela federal): junte fanáticos, espalhe comida ao povo e cante canções.about 1 hour ago via web
  17. Dilma nega envolvimento com vazamento da Receita. Isso mesmo, Dilma. Negue tudo. Negue sempre. Se te torturarem, minta de novo.about 1 hour ago via web
  18. Por que será que sempre tem um invejoso por perto metendo o nariz quando se cria algo ?about 1 hour ago via web
  19. Quer que um segredo se espalhe? Que Twitter, que nada! Conte pra RECEITA FEDERAL!about 1 hour ago via web
  1. Vai durar até novembro!!!!about 14 hours ago via web
  2. Na minha terra quando alguém mente muito, a gente diz que tá queimando campo e fazendo fumaceira: Tá explicado. Campanha eleitoral!!!!about 14 hours ago via web
  3. Eleição é um DILEMA: MARINA refloresta o país e vem um paulista e SERRA! Ui, que trocadilhos mais infames. Mas foi o que eu consegui.about 14 hours ago via web
  4. Essa fumaceira toda no ar não é nada grave. São apenas gases.about 16 hours ago via web
  5. Em cada recomeço, um novo amanhecer. Um novo dia. Um novo e esperançoso entardecer.about 16 hours ago via web
  6. Cada saudade, um eternizar de sonhos. Em cada sonho, um novo recomeço.about 16 hours ago via web
  7. Cada dia marca um compasso. cada compasso, um pensamento. Cada pensamento, uma saudade.about 16 hours ago via web
  8. Trate bem um politico em ascenção, pois poderá encontrá-lo quando estiver lá em cima.about 17 hours ago via web
  9. Ela é boa observadora. Viu que eu não tirava os olhos das mãos dela e me tranquilizou: Minha próstata tem apenas 16g.Viva o Ultrassom!!about 17 hours ago via web
  10. Minha geriatra me recomendou que perdesse um pouco de peso. Já na hora perdi meio quilo. Paguei a consulta com moedinhas.about 17 hours ago via web
  11. Certos políticos mantém a forma correndo. Correm dos eleitores, correm dos credores, correm da justiça....about 17 hours ago via web
  12. Ouvido num culto ecumênico em Brasília: "VAMOS CORRER A CUEQUINHAAA!about 18 hours ago via web
  13. Bati a primeira marca de 100 seguidores. Quando chegar a dez milhões, vou fundar uma seita em Brasília: Seita óbulumabout 18 hours ago via web
  14. Franqueza excessiva é grosseria. Falta de franqueza é burrice.about 18 hours ago via web
  15. Conferindo "ACANTHUS 1" no Casa Pro: http://ning.it/cQdDyd9:05 AM Sep 2nd via CasaPro
  16. Acabou de carregar 50 novas fotos em Casa Prohttp://ning.it/aF7mwa9:00 AM Sep 2nd via CasaPro
  17. Testando cel Pacard 48 9961 1546 :-)8:53 PM Sep 1st via txt
  18. Fico enternecido em ver o deus grego Janus (o que tinha duas caras) encarnado nos candidatos. Dá vontade de me tornar pagão de tanta emoção8:43 PM Sep 1st via web
  1. TWITTANDO 1 
    A arte de ser eleito é a arte de conhecer o espírito humano e fazer disso beneficio em teu favor. o perigo é não conhecer a ti proprio.about 11 hours ago via web
  1. Alguém precisa ensinar aos novos bolivarianos do sul do Equador que mosto se torna vinho, mas depois vira vinagre.about 11 hours ago via web
  2. Alguém precisa contar aos novos bolivarianos do sul do Equador: O único império que ainda existe, é um exemplo de democracia: o Japão.about 11 hours ago via web
  3. Alguém precisa dar algumas aulas de análise profética para os novos bolivarianos do sul do Equador: Não haverá um quinto império mundialabout 11 hours ago via web
  4. Tenho certa dúvida se para entender a política devo consultar a historia, sociologia, antropologia, ou fazer psicanálise.about 12 hours ago via web
  5. Se vivessemos nos tempos bíblicos e fossemos hebreus, quem seriam nossos filisteus, jebuseus, amorreus, heteus e cananeus de nossos dias?about 12 hours ago via web
  6. Arrisco uns nomes: Peteus, Peessedebeus, Peveus, Peemedebeus, Demebeus, Peesseteuveus, Pepeus.....Politiqueus!!!about 12 hours ago via web
  7. Conheci os melhores e os piores políticos. Eram os mesmos. Se fosse pagão, diriam que eram filhos de Janus, o deus de duas caras de Roma.about 12 hours ago via web
  8. Sereias não são mitos. Elas existem. Tem braços, pernas e abraçam pedindo votos. Depois, qual esfinges famintas, te devoram sem decifrar-teabout 14 hours ago via web
  9. Político é um fingidor, que finge tão somente sentir a dor que o povo deveras sente (perdão, Fernando Pessoa, mas escapou)about 14 hours ago via web
  10. Política e Educação são parecidas na fonética das definições: Professor faz Pedagogia. Político faz Demagogia.about 14 hours ago via web
  11. Político perigoso não é nem o corrupto. Esse é um ladrãozinho barato. o que mete medo é o que pensa ser o último Messias. E tem muitos.8:04 AM Sep 4th via web
  12. O maior mal dos políticos não é a corrupção, pois nem todos são corruptos. O Câncer da política é a vaidade e o torpor pelos palanques.8:02 AM Sep 4th via web
  13. Os políticos ideias deveriam ser escolhidos pela modéstia. Isso significa que as fotos deveriam ser iguais àquelas com numeros, de frente.7:59 AM Sep 4th via web
  14. O Estado ideal seria aquele em que o povo nomeasse seus governantes em segredo, e só depois de eleitos é que tomassem conhecimento disso7:58 AM Sep 4th via web
  15. Política é a arte de pisar leve nos eleitores, firme nos adversários e fundo no povo, depois das eleições.7:39 AM Sep 4th via web
  16. Datafolha diz: Dilma 50% e Serra 28%. E o povo: ZERO!7:35 AM Sep 4th via web
  17. Há políticos capazes de adornar um jardim, mas é melhor não tocar na sua haste. Bom é deixá-los ornando silentes que melhor fazem.7:35 AM Sep 4th via web

quarta-feira, agosto 25, 2010

O CRIME DO MALA (2)
Pacard


Capítulo II
Mocotó nasceu então na Ilha do Desterro, ou Ilha de Santa Catarina, ou mais tardiamente, e não por culpa dele, denominada Florianópolis. Tornou-se por nascimento, um “manézinho”, adjetivo gentílico dado aos habitantes da ilha, por serem em sua maioria, descendentes diretos do Açorianos, portanto portugueses, portanto premiados com um considerável e variado estoque de nomes próprios.  Existiam então, todos os nomes possiveis e imagináveis, sendo que é pura lenda e um mito pejorativo dizer-se que portugues e seus descendentes possuam apenas dois nomes: Joaquim e Manuel. Isso não é verdade, pois não havia nenhum Joaquim na ilha. E de Manuel, apocopado, provém “Mané”, e por serem de diminuta estatura, tornaram-se os “Menézinhos da Ilha”. Este adjetivo era considerado um deboche até os anos 80, mas como o Brasil é um país de festa, onde tudo vira samba e cervejada, e a Ilha teve um herói nas quadras de tênis, o Guga Kuerten, que não sentia nenhuma vergonha em ser um mané, ou melhor, sentia-se feliz em dizer que era uma manézinho da ilha, foi que dali em diante, ser mané virou adjetivo honroso. Na verdade é dessa forma que muitos importante sobrenomes surgiram: Cardoso, por exemplo, era um plantador de cardos, uma erva daninha, que na antiguidade servia como aditivo de curtição nos curtumes.  Ainda é definido como Sobrenome de origem portuguesa, classificado como sendo um toponímico, ou seja de origem geográfica. Vem da expressão "terreno Cardoso ou chão Cardoso" isto é cheio de cardos.  Outro nome: Adamastor, significa “invencível, indomável”. Claro que há também outros nomes que seria melhor não haver significado, como por exemplo: Bevilacqua, que significa “o que bebe água”, mas se referindo a vinho, numa tradução contemporâneas livre seria literalmente: “Pau d’água, bebum, gambá”.  Outro nome conhecido, Barbosa - Sobrenome português toponímico, indica um lugar onde há muitas barbas de bode ou barbas de velho (espécie de planta).  E por aí seguem os exemplos, de como um apelido, uma brincadeira, uma referencia territorial, podem se tornar pomposos um dia em futuras gerações.
Pañuelo era um nome pomposo em Valencia. Tanto poderia significar um lenço, um pano, como a origem de seu ancestral, um vendedor de tecidos, “pañuelos”.  Já Pitombo, segundo o dicionário de significados informal, diz que o ato de “pitombar” significa promover sexo de forma tempestuosa, do tipo que quebra a cama, arranca porta, derruba armário, faz voar telhas e deixa o jardim da casa em pandarecos.  Nada mais apropriado a um espanhol de sangue quente e gestos teatrais, dramáticos, imponentes. Um espanhol não diz apenas “bom dia”. Tem que ser estrepitoso. O corpo inteiro participa da saudação. As mãos e a voz tremem.  Assuma a posição do Paso Doble diante do touro que escarva para o derradeiro ataque. Não que seja necessariamente este o espírito de  Genevaldo, e nem poderia ser, pois a vivência da ilha aos poucos vai trocando a imponencia pela curiosidade desconfiada, e quando percebe, deixa de ser um Pañuelo Y Pitombo, e se torna o Mocotó, porque era seu prato favorito.

....continua

domingo, agosto 22, 2010

O CRIME DO MALA
capítulo I
Pacard

Não errei o gênero. Apenas troquei o indivíduo por seu qualificativo. Mala sem alça. Nesse caso, assume o gênero masculino, por uma referencia de sua personalidade mala...mal amado..mal arrumado e mal grato também.
Era o Mocotó. Também não se tratava de um mocotó, mas do Mocotó. Com a grande. Alcunha ou pelido de Genevaldo Pitombo y Pañuelo, mas poucos conheciam seu nome civil. Apenas Mocotó, seu nome de guerra, era o que ecoava pelos corredores infestados de fumaça de cigarro vagabundo, da repartição onde Mocotó trabalhava.
Pitombo, nome de familia paternta, e Pañuelo, da mãe. Doña Dolores Margarita del Piño y Pañuelo. Parece trocado, mas era espanhol. Catalão, pra dizer a verdade. Lá o nome do pai vem antes: Pitombo, nome português, mas nascido nos Pirineus, ao pé de Pica D’Estats, a montanha mais alta de toda a Catalunia (ou Catalunha), num vilarejo escondido, onde quase todos eram agricultores, plantadores de batata e vinhas. Don Ramirez del Coño Aranjuez y Arancíbia Pitombo era latoeiro e trabalhava com os irmãos em uma oficina onde fabricava jarros, bacias e outros utensilios para a vizinhança. Porém, com a Guerra Civil deflagrada, fugiu com a mulher e filho para a França, e de lá tomou um navio que vinha da Itália carregado de imigrantes para a América do Sul. E fui nesse navio, entre um enjôo e outro, por mais de cinquenta dias mofando no mar, perdido entre as lembranças da Espanha que deixara, e a esperança da América, que os receberia, quando e onde foi concebido o pequeno Genevaldo. “Genibal”, para sua mamacita.
Pouco antes de chegar ao porto, em Santos, um temporal vindo de alto mar, fez com que o navio tivesse problemas mecânicos e foram necessários mais tres dias, até que houvesse calmaria. Esse temporal repentino, somado ao cansaço da viagem, causou certo desconforto entre os passageiros, agravando o início de gravidez de Genevaldo, que se prolongou durante os longos meses seguintes, pelo difícil início da familia na nova terra.
Don Ramirez trouxera algumas ferramentas essenciais para sua função, o que lhe permitiu iniciar logo seu trabalho. Primeiro, em Santos mesmo. Mas logo mudaram para São Paulo, onde a cidade crescia e havia mais oportunidades. Mas também não demoraram muito tempo em receber um convite de outro espanhol, vindo de Valencia, onde fora pescador em Gandia, uma pequena cidade balneária no Mediterrâneo, e havia falado de um refúgio tranquilo no sul do Brasil, na Ilha de Florianópolis, um antigo reduto de descendentes de açorianos, onde a pesca era o principal meio de subsistencia, e abundante, o que oferecia oportunidades melhores para o valenciano, e para os Pitombo, também poderia ser um lugar de paz, o que buscavam, e São Paulo, naquele periodo lembrava um pouco o tumulto das cidades maltratadas pelos bombardeiros alemães sob a ditadura e Franco. Bem verdade é que aqui havia outro baixinho, também ditador, mas deste lado havia certa cordialidade, e alguma liberdade de trabalho, e o melhor de tudo: era um país brotando, cheio de oportunidades para quem tivesse um ofício. E latoeiro era um bom ofício, pois mesmo com dificuldade e raridade dos metais de fabricação de seus utensilios, sempre haviam consertos e reparos, o que garantia que seu martelinho não parasse o dia todo e muitas vezes até tarde da noite. E para um espanhol latoeiro, martelo batendo era alimento entrando em casa, pois toda a aparencia de austeridade que seu longo bigode tentava mostrar, o peito apertava e o coração era acelerado toda vez que Doña Dolores lhe tomava a mão e colocava sobre a barriga para sentir os chutes do pequeno “nadó”, ou bebê, na língua catalã.

....continua

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sábado, agosto 21, 2010

O Futuro começou há muito tempo.
Pacard
Parece uma brincadeira, jogo de palavras ou simplesmente uma licenciosidade gramatical. Mas não é. O tema é sério e o assunto é atual. Mais que isso, é necessário. mais que necessário, é vital. O autor do livro de Apocalipse (Revelação), profetizou que um dia, o homem teria que acertar contas com o Criador. Não é preciso ser crente, religioso, maluco ou curioso, para saber que isso está muito próximo de acontecer. Acreditemos ou não. Gostemos, ou não. O dia está muito próximo. Todos, sem exceção, estaremos diante de um tribunal, e ao tribunal, ao próprio julgamento, ninguém vai por que deseja, gosta ou é voluntário, mas porque é levado. De livre vontade, ou buscado às amarras e levado com algemas, ao tribunal todos tem que ir, se convocados. Lei não é opção. É para ser cumprida, e o descumprimento acarreta necessariamente em julgamento, e em havendo culpa, se reverte em punição. Ou se pelo contrário, houver inocência, recebe de volta sua liberdade.
Observe que liberdade não se ganha após o julgamento, mas antes dele. E a liberdade proporciona sempre escolhas. E as escolhas remetem a decisões. E as decisões, às consequencias. E gostemos ou não, desejemos, ou não, seremos todos julgados. E o interessante disso, e mais assustador é que, diferente dos tribunais humanos, em que, morto o réu, cessa a acusação e cancela-se o julgamento, nesse caso, não há apelação nem justificativa para uma possivel ausência. A morte não é desculpa, apenas um cessar de ações, cujas consequências até então é que serão julgadas.
Sempre assusta falar, ler ou escrever sobre a morte ou sobre o que vem depois. Mas ou fazemos isso, ou as pedras o farão por nós, segundo a Bíblia. Ou alertamos às pessoas sobre seus atos e deles, as consequências, ou seremos levados juntos ao mesmo tribunal por duas vezes: pelos nossos próprios atos, e depois, junto delas, pelas nossas abstenções. Há crimes em que somos culpados por tê-los cometido. Há outros, em que somos culpados por sermos omissos. Não querer saber, escapar do assunto, fugir das responsabilidades, não nos torna inocentes, mas culpados em dobro. E culpados de que? De conhecermos e não alertarmos. De termos a chave a não abrirmos as portas. De caminharmos sós, enquanto há tantos que não conseguem andar.
O futuro não começa amanhã, nem logo mais. O futuro começou ontem. O futuro está acontecendo nesse momento e o futuro pode sim ser mudado. Aquele futuro apontado ontem pode ser diferente amanhã se agirmos hoje.
Quem viver, verá.

segunda-feira, agosto 09, 2010

PEGANDO TIRISCO




TIRISCO



Do Teuto-latino Wilfrützengnauptenschnaps bula bula-Tiriscus bagacialliys, Pum, pum

Trata-se dum ser completamente inofensivo, porém perseguido incansavelmente desde os primórdios dos acampamentos e internatos masculinos. Segundo os especialistas, Dr PhD, Master y Blaster, Newman Schwantzigsten Prosit III, e Dr. Phd Ballayubacus Balacubacus, da Czenszkolovenskuticuti University, há cerca de vinte a oito espécies catalogadas, porém jamais fotografadas da criatura, retratada pelas seguintes condições:
É peludinho, gordinho, olhos esbugalhados, tem voz rouca, gosta de bebicas alcoólicas, especialmente aguardentes, costuma reunir-se em bandos para cercar lavouras, e são arredios, pois embora sempre presentes em brejos e matagais, também são encontrados nas cidades mais industrializadas, porque se familiarizam com as fábricas de automóveis e metalurgicas, ambiente que lhes favorece a engorda.
Mas preferencialmente são jamais encontrados em acampamentos de escoteiros, desbravadores, bandeirantes, embora sejam sempre motivo de incansável busca pelos participantes novatos.
Neste forum vamos reunir especialistas no assunto e por meio intuitivo e pela lógica do debate, formularemos propostas que devem chegar a uma apresentação do espécime, que também não se tem a certeza de que seja animal, vegetal, fungi ou politico.


MAFAGAFOS
Quero acrescentar que, segundo a antiga Encyclopaedia Universalis Naturalis et artificialiys des coiseés absurdées, Cazuza Ferreira, 1776, há um assemelhado parentesco do Tirisco com outro espécime, ainda mais raro e arredio, o MAFAGAFO ( Mafagafus Fus Fus, Scrementuallis Pum pum). Este indivíduo é ainda mais esperto e se prolifera em maior numero e velocidade. Cada ninhada sempre vem em numero de sete indivíduos, que mamam na mafagava fêmea durante a vida toda infantil. Em geral, se evadem do aleitamento, chamado também de "Ato de Desmafagafear", o que tem que ser feito aos sete duma vez, e a tradição impõe que o afortunado desmafagafeador dos sete mafagafos com a mamãe mafagafa, recebe honrarias como melhor desmafagafeador da aldeia. Em geral, estes indivíduos pertencem à uma categoria que se julga superior e também vive aos bandos. Sua espécie está entre animal, fungi e politico.

terça-feira, agosto 03, 2010

As Sombras da Janela
Pacard

"Eram pássaros pequenos e nada mais. Apenas pássaros. E pássaros que não podem voar, não podem ser pássaros, pois voar é preciso para que sejam cada vez mais pássaros. E livres possam voar..."

Ouvia Debussy. Em plena metade da manhã, ele ouvia Debussy. 
As manhãs não foram feitas para Debussy. Talvez Vivaldi. Debussy, não. Este tem seu lugar ao entardecer. Chopin, vem logo mais adiante, no alto da escuridão. Mas para as manhãs,  Grieg poderia fazer companhia aDebussy.
No entanto ele ouvia Debussy enquanto a mão trêmula desenhava algo no vidro suado da janela. Desenhava ou escrevia. A água condensada pelo calor da mão escorria fazendo borrar  o que já havia desenhado. Pareciam circulos, repetidos, mecânicos.
Mas seu olhar não mirava as mãos que parecia mecânicas no gesto hipnótico de circular no vazio. Olhava num ponto perdido entre o infinito de seus pensamentos e o horizonte avermelhado.
Uma lágrima verteu enquanto premia os lábios contendo o choro. Mas a alma já chorava havia muito tempo antes. Lá fora, o sol brincava de ir e vir entre nuvens apressadas, e o riacho murmurava quebrando o silêncio. Um pássaro perdido buscava gravetos com pressa própria dos pássaros, compensando o inverno que avisava de sua chegada. Com chuva. Fina e fria. Fechava-se o céu. As cores mudaram e cada vez mais embaçado o vidro ficava.
Debussy no velho toca-discos, continuava a tocar numa interminável homilía ao amor perdido. Numa elegia à solidão. Numa compensação pela dor. Apenas se quebrava a mágica combinação da música com a paisagem e o pensamento, o ruído das falhas do disco de vinil antigo.
Ele havia sonhado voar alto, mas calculara errado o alcance do vôo. Suas asas, como as de Ícaro, se partiram, escoaram no sol da realidade, e o levaram a estatelar-se no chão. Restava agora o recomeçar. Sem as asas, que eram seus sonhos. Com a dor da queda. Apenas ainda o olhar aguçado, para que disteante pudesse ver e sofrer pelo que havia perdido.
Seus sonhos eram tantos. Uns tangíveis, outros brumas. Pequenos sonhos povoavam sua alma como uma multidão de pequenos pássaros voejando em sua existência. Eram pássaros pequenos e nada mais. Apenas pássaros. E pássaros que não podem voar, não podem ser pássaros, pois voar é preciso para que sejam cada vez mais pássaros. E livres possam voar...
A música acabou, mas o disco continuou a girar. A agulha travou e o último acorde se repetia interminavelmente da vitrola....
Seus pensamentos se repetiam em pequenas partes. Apenas as partes boas de sere lembradas.

Entre o Sonho e o Tempo
Pacard

"Fui pequeno quando nasci. Tornei-me grande ao me ver pequeno diante do mundo. Hoje sou do tamanho do meu sonho."
Pacard

A primavera foi-se tão rápido. Nem permitiu que ele visse todas as flores que cruzaram seu caminho. Deveria tê-las catalogado, uma a uma. Mas o perfume não seria possivel. Claro, havia como roubar das flores a fragrância e a indelével maciez das pétalas. Mas então teria que interromper seu ciclo de vida. Mas pra quê? Vida tão curta. Tantos caminhos por andar, mundo tão grande por se deixar acontecer. Não. Deixou as flores onde estavam. Haveria nova primavera. Viriam novas e repetidas primaveras.
Quanta certeza disso. Então, silenciosamente, ele parou, olhou o mundo do alto de uma árvore bem alta e sentado horas a fio num galho confortável, ele concluiu:
Fui pequeno quando nasci. Tornei-me grande ao me ver pequeno diante do mundo. Hoje sou do tamanho do meu sonho.
Deixou o entardecer chegar, desceu da árvore, e silenciosamente, partiu junto com a primavera.
Foi buscar novas flores.  Respirar outros perfumes. Sentir brisas de além do horizonte. Continuar a viver, onde quer que houvesse vida e sonhos para se deixarem viver por ele.
Serenamente então viu-se seu vulto andarilhando rumo ao poente...
Vergonha na Cara
Pacard
 Isso é um negócio que uns têm. Outros não. Eu explico: mentira por exemplo. Quem admite que é mentiroso, mas assim , na cara dura, deslavado? Que eu saiba, ninguém. Pois muita gente é. E se for chamado de mentiroso, tipo assim, na lata, no dedo em riste, ah, mas vira bicho. Diz que lhe ferem os brios, e que pataquá, e etecétera. Mas continua sendo mentiroso. E sem caráter. E como, mas como tem gente desse tipo.Vejamos um exemplo: Ah, esta é uma prova para saber se você tem caráter, se é honesto, se tem vergonha na cara e se não é mentiroso. Vamos ao caso:Você está fazendo algo, mas não se caracteriza como algo absolutamente urgente. Nada o impede de divergir do assunto uns minutinhos , porque não fará a menor diferença. E o telefone toca. Pronto: está armada a circunstância propícia para começar sua cota de mau caratismo do dia. Talvez a primeira de uma série delas. Bem, nesse tempo, o telefone já tocou novamente duas vezes. Voce grita: “Mas ninguém atende essa merda de telefone?” (esqueci de mencionar que a merda do telefone está na mesa à sua frente. Alguém é generoso e atende:- Alô! Quem? Fulano? Ah, … (e voce imediatamente inicia um balé de sinais pra saber quem é).- Um momento, sim. Vou ver se está. Aí entra “Kalinka”, aquela outrora tão linda e sentimental melodia russa, agora tão banalizada pelo som de “bits”. Diria até que se trata já do hino nacional da mentira.E você diz, aos gestos apavorados de uma coreografia sofrida que “de jeito nenhum. Que você soube de um parente em coma no Alasca e que foi obrigado a prestar solidariedade a uma família de afegãos que dependiam emocionalmente desse parente, porque eram refugiados no Egito”. Isso. Essa seria uma desculpa aceitável pra não atender nenhuma espécie de telefonema. Afinal, o que as pessoas pensam? Que podem pegar num telefone e sair ligando pras pessoas? Mas com quê direito?- Alô. Desculpe a demora…é que tive que correr atrás do avião na pista molhada, mas já havia decolado..infelizmente..foi visitar..blá..blá…blá.- Não, infelizmente não há a menor previsão de retorno, não pelo menos enquanto o PT estiver no governo.. mas, o senhor gostaria de deixar recado? (e diz isso com a voz mais cândida do mundo) Não? Deixe então seu telefone, que o fulano vai ligar, assim que retornar..está anotadinho aqui. Não se preocupe. Obrigado.As desculpas variam. Ora é para o Alasca. Outra vez é desencalhar o Rainbow Warrior dum poço de petróleo incendiado pelos anti-ecologistas no Cáucaso. Tem vezes que não há desculpa alguma: simplesmente o telefone fica fora do gancho (eu ainda vou escrever sobre isso: porque raios se chama “gancho”, se nem gancho tem mais. Ou por que se chama “discar”, se é tudo com teclas?), e a vítima que se lasque.E então: pronto. Você mentiu. Mentiu descaradamente. Mentiu porque é um covarde. Mentiu porque não tem a menor consideração com as pessoas. E mesmo que na outra linha esteja um chato, voce mentiu porque não tem peito pra dizer: Pô, não me amola. Eu não quero falar com você. Não me ligue.Mas por que se expor, se mentir é mais barato? Mais divertido? Menos agressivo? Afinal, você É civilizado. E nesse caso, mentir é uma marca de sutil elegância.E depois você se queixa que este mundo está pior, porque as pessoas não são verdadeiras. Porque os valores morais foram apagados pela busca do ter em lugar do ser. Pelo mau caratismo dos outros.E há outras mentiras que varrem a sua vida. A mentira do cheque que um caloteiro lhe passou, e por isso não pôde saldar um compromisso no dia, quando simplesmente você não tem coragem de dizer: “Não pude te pagar hoje. Calculei mal, errei no meu planejamento. Gastei o que não podia e comprei o que não devia, e agora me ferrei. Mas sempre tem outro na ponta da linha. Sempre os outros são os culpados pelos nossos infortúnios.Por que não assumir de uma vez, passar uma vassoura na sujeira da nossa vida, assumir que cometemos burradas atrás de burradas e dizer: pronto. Desabafei. Errei. Fiz besteira. Mas não quero mais errar. Não quero mais mentir, não quero mais emporcalhar minha honra nem fazer as pessoas de bobas. Não quero mais embromar as pessoas. E se o fizer, quero ter a dignidade de voltar atrás e dizer: “Me perdoe, porque eu fui sacana”.Mas, claro, que isso quem tem que fazer são os outros. Você é perfeito. E se você é perfeito, então você é quase um deus. E se você se sente um deus, então você é um mentiroso, porque Deus só há Um. E nunca mentiu.>>O direito de estar erradoPaulo CardosoTemos todo. Principalmente porque erramos o tempo todo. Felizmente, porque os erros são nosso grau de colação na tão promulgada “Escola da vida”.Diz o adágio popular que só o homem tropeça duas vezes na mesma pedra. É verdade. Mas também só o homem pode se perguntar: “por que botaram esta pedra no caminho?”Diz-se do homem ser fruto do seu meio. Meia verdade nisso, porque conheço gente decente neste mundo, e dizem que este mundão velho não é mais de se pegar com a mão. Meia mentira isso também, porque já encontrei pessoas que nasceram e foram criadas em famílias exemplares, mas se tornaram vegetais sociais.Diz-se do homem ser um animal social. Não se compara: animal social pra mim é a formiga. Não Bush nem Bin Laden. Diz-se também do homem ser o melhor amigo do cão. Não? Ah, é o contrário? Justificado então os criadores de pitt bulls.Diz-se que aqui se faz, aqui se paga. Ah, tá. Falem isso ao governo que daqui toma e lá for a tanto paga. Mas tamb´m se diz que cada povo tem o governo que merece. Pode ser. Todos devem ser castigados para se purificar e aprender a errar menos. Ah, mas dizem, isso eu não posso afirmar que saiba por mim mesmo, mas dizem, que em priscas eras o salário mínimo era o mínimo justificável para se chamar de salário, isto é, a justa paga por um dia de trabalho. Ah bom, mas isto não mudou. O salário mínimo é exatamente o suficiente para o que o homem necesita dar à sua família em um dia de trabalho. O problema é que o mesmo dinheiro precisa durar um mês.Acho que estamos exercendo com louvor nossos direitos todos: o de errar, e o de pagar pelos erros dos outros. O de falar, e o de pagar políticos para que falem por nós. O de viver, e o de atrapalhar aqueles que vivem à custa do dinheiro que falta dentro do mês em nossos salários
Uma Paixão
Pacard
"Fêz-se o ocaso de sua paixão. E como ele era todo paixão, sublimou-se no entardecer."
Conto
Pacard

-Onde vai no fim de semana?  Era uma pergunta simples. Corriqueira. Quase esquecida, não fosse a resposta:
-Vou à praia, respondeu ela docemente.
Natural, era verão. Todos, ou quem pode, vai à praia.
-Com quem? Família toda?
-Com uma amiga.
Ele não perdeu oportunidade para  uma natural gracinha:
- Ah  que vontade de ir à praia. (nem era tanta assim. Mas puxava assunto. Ganhava minutos na presença dela).
- Porque não vai comigo? perguntou com candura.
Ele estremeceu, e continuou:
-E o que teria eu de bom na praia?
-Teria minha companhia, ela respondeu.
Ela se despediu dizendo: "te adoro muitão".
Não havia mais coração dentro dele. Havia, mas não era mais o mesmo. Disparou. O que um homem de cabelos grisalhos poderia fazer com a informação que uma menina de vinte anos o convidara para acompanhá-la num fim de semana na praia?
Ele tinha mulher e filhos. Ela tinha a juventude ao seu encalço. Ele era experiente e cansado. Ela tinha o brilho no olhar que ele não via mais desde  muito tempo atrás.
Ela era pura e casta. Ele era um andarilho da vida. Homem bom, honesto, trabalhador, pai exemplar. Era medianamente feliz. Perambulava pela vida sem se fazer notar, embora buscasse ser notado o tempo todo. E ela o notou. Esse foi o seu mal. Por alguns momentos, ela percebeu sua presença. E ele percebeu isso. E por causa disso, desejou viver. Desejou ser mais intenso. desejou intensamente sua juventude. Desejou intensamente que ela lhe emprestasse juventude. Ele a amou com toda a profundidade do seu coração. Jogou sua âncora na profundidade de suas águas cheias de mistério. Quis navegar em suas brumas. Mas seu leme não era firme. Seu norte se perdeu. As águas tragaram sua nau.
Seus dias agora percorriam o caminho oposto ao ocaso, mas o ocaso é bem mais velho, bem maior. E com a mesma intensidade que veio, o brilho deste sol se foi. Súbito como a morte. Certeiro como as águas que correm para o mar. Era sabido. Mas não era desejado.
Serenamente, o ocaso veio. Tornou-se seu algoz. Tênuamente desaparecia no horizonte (aquele lugar mais além, tão imaginado, mas impossível) brumado pelo rubro entardecer, abraçado pela noite, seu devaneio .Fêz-se o ocaso de sua paixão. E como ele era todo paixão, sublimou-se no entardecer. O sonho acabou.
Voltou ele ao seu mundo. Ao seu monastério. Não mais se ouviu dele falar. Tornou-se um mistério. No entanto, muitos o ouvem chorar sempre ao entardecer. Um choro silencioso. Um silêncio doído, sufocado pelo anoitecer.
A noite o serenizou.
Cada um tem sua própria história. Até mesmo que que não têm história nenhuma para contar, ou então os que não saibam contar sua própria história, definitivamente têm uma história a ser contada. Para ter uma história, basta deixar que o tempo passe. E para que o tempo passe, não é preciso fazer nada de especial. Ele passa mesmo assim.
O que nos torna especiais, valiosos ou não, é a nossa história pessoal. Umas ricas. Outras medíocres. Mas todas elas são histórias. A minha, a sua, a de cada um e a de todos nós juntos.
Esta é a minha.
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SERRA DO PINHÃO
Vencer não é só vencer, mas perseguir vitórias. Cada dia tem a sua vitória e cada dia tem percalços. Um de cada vez alguém deixa a arena: os tropeços, ou as vitórias.
A Serra do Rio Grande do Sul é desenhada por belíssimas paisagens entalhadas por vales, montanhas, rios, campos e matas. Cada detalhe desenha um manto multicor de vida que bem poderia ser um preâmbulo do Éden distante.
Pássaros que acordam o dia trinando sinfonias. Raios de luz que douram o vazio das árvores e uma brisa fria que rompe a manhã num sopro sereno. Finas gotas de orvalho parecendo diamantes líquidos. E o perfume dos pinhais soprado de longe e que se misturam com os acaciais floridos. Essas são as lembranças que me avivam uma saudade poética, uma nostalgia que não oferece a mínima possibilidade de acontecer de novo. Mas é doce lembrar, imaginar, construir cenários, aspirar odores e ouvir músicas que só se pode ouvir com os ouvidos da alma. Essas melodias serão sempre tocadas em tempos e compassos diferentes, de acordo com a alma que as evoca. E minha alma evoca essas lembranças. Boas para mim. Amargas para as pessoas que não tinham, como eu, um ano de vida. Por isso que as chamo de lembranças da alma, associadas ao que mais tarde conheci daqueles cenários, porque uma criança de um ano de idade não é capaz de construir cenários, nem assimilar compassos e notas musicais, nem mesmo identificar a brisa murmurando entre as frestas do choupo em que tudo isso aconteceu no curto tempo em que conheci o lugar que nasci: a Serra do Pinhão.

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É UM TICUDO COMADRE
A Serra do Pinhão era uma das colônias tuteladas pelo Distrito de Cazuza Ferreira, e esta, por sua vez, um Distrito de São Francisco de Paula. Distante cerca de trinta quilômetros da sede, o Pinhão, como era chamado, era cortado pelo Rio das Antas, e fica no triângulo fromado pelos municípios de Sâo Franscisco de Paula, Caxias do Sul e Bom Jesus.
Ali, meus avós tinham cerca de uma colônia de terras, aproximadamente cinquenta hectares. A maior parte de encostas, algumas íngremes, altiplanos, várzeas e uma planície cultivável. Dali provinham a vida. Roça de milho, feijão, batata, legumes, enfim, o suficiente para abastecer uma família e ainda vender o excedente para manutenção dos demais víveres, como roupa, remédios e algumas extravagâncias. Poucas, nada que lembre o que extravagamos nos dias atuais.
Minha mãe tinha então 15 anos. O lugar distante em que moravam, a falta de escola e a adversidade da vida que levavam, não permitiam que ela estudasse. Então minha avó contratou um professor particular para que a deveria auxiliar nos estudos. Auxiliou. E eu estou aqui.
Por razões óbvias, vou pular os detalhes. Para ganhar dinamismo, vou ignorar conscientemente a parte em que meu pai matou, numa briga, meu avô. Vou pular o drama da volta à cidade natal de minha mãe e avó, enfim, essas particularidades só interassam ao passado ruim. Ao passado que não traz lições. Só amargura.
Mas há uma particularidade que quero lembrar, isto é, relatar o que me foi contado e guardei como lembrança minha. Foi meu nascimento.
A parteira era uma preta velha. Acho que se chamava Inácia ou Anastácia. Ou algo assim. Era costume local que a parteira proclamasse uma espécie de vaticínio ou bênção sobre o rebento ao fazê-lo nascer. Se fosse menina, dizia que havia nascido uma "costureira". Se fosse menino, seria denominado "foiceador", um adjetivo atribuído ao macho, home rude que mostraria aptidão para a lide rude do campo, do machado, da foice, da enxada.
Secretamente minha mãe, com já 16 anos de idade, desejava algo melhor para seu bebê. Não o imaginava crescendo naquele fim-de-mundo, atrelado à falta de oportunidade e ao desígnio de se tornar uma submissa costureira, ou um embrutecido lenhador.
Um sábado pela manhã, pelas seis horas, eu nasci. Não sei se cantavam bem-te-vis ou sabiás. Talvez sim. Os dois, pois eram seis horas da manhã, duma primavera, 23 de novembro de 1957. Mas não acredito que o canto dos bem-te-vis, nem o trinado dos sabiás poderia abafar os gritos de dor de minha mãe naquele instante. Apenas uma expressão a fez sorrir, dita pela preta velha: "É UM TICUDO, COMADRE"!
Minha mãe diz que sorriu feliz e esqueceu da dor. Era um macho sim. Um menino. Mas não havia vaticínio ou agouro sobre mim. Não havia lugar entre os foiceadores nem entre as costureiras daquele lugar. Meu destino era o mundo. Não era uma profecia. Mas aquela expressão tinha significado. Nem a Serra do Pinhão, nem Cazuza Ferreira, nem Sâo Francisco de Paula, nem o Rio Grande do Sul, poderiam ter ferrolhos nos portões que me pudessem impedir de sonhar nas asas do minuano.
Ainda bem pequeno então, montei na garupa do vento e galopei vida afora. Longe da Serra do Pinhão. Eu era um ticudo. Isso me bastava para domar vendavais.

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DE VOLTA À GRAMADO
Depois da tragédia, resta recolher as cinzas, lamber as feridas e recomeçar. Foi isso o que fizeram minha avó, mãe e tios. Meu avô foi morto por meu pai. Minha avó vendeu, ou melhor, deu tudo o que tinha. As terras. A alegria. A esperança. Contratou uma carreta e um caminhão de frete, isso não sei ao certo. Mas não foi nada confortável, disso estou seguro. Foram cento e trinta quilômetros por estradas de chão, carreiros por escarpas íngremes e um trajeto por um lugar chamado "Passo do Inferno", pela estreiteza do caminho ladeado sem nenhuma proteção por um penhasco de dezenas de metros de altura.
Na carreta que gemia a dor de duas mulheres, dois meninos e um bebê, as "matolotagens", numa expressão usada por minha avó. Eram os trastes, as muambas, os trapos de uso da família trazidos para a nova morada. O patrimônio que restava de uma vida de trabalho. Os poucos mijados que serviam ao rancho de tábuas toscas de pinheiro, cor de cinza pelos anos, cerno puro de pinheiros antigos, que desmanchado foi levado e reconstruído num cantinho de terra sem tamanho definido. Nem precisava: era um empréstimo de parentes condoídos.
Na carreta que rangia, havia o choro que calava quatro pessoas e um projeto de gente. Todo menino nasce para ser um rei e governar seus sonhos. Havia ali um rei governando o ânimo. Um rei "ticudo", e seu cortejo lúgubre cujos arautos trombeteavam guinchos de rodas sem graxa da carretinha puxada por mulas. Dois dias,quase três de viagem, que separavam páginas de vida. Uma antes, lá na Serra do Pinhão, uma família inteira. Depois, a página seguinte, em Gramado, onde "ninguém" era o nome dos que ora chegavam.
É muito estranho voltar. A volta, às vezes por saudade, às vezes pela dor, sempre quebra orgulhos. Não orgulho algum em voltar. A volta é humilhante. Voltar sempre é humilhante, para quem quer que volte.

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TIA MARGARIDA
O período que transcorreu logo após a tragédia, creio não precisar descrever. Dor é dor. cada um tem a sua. Lá em casa eram muitas as dores: uma morte, um crime, um desaparecimento (meu pai sumiu, foi julgado à revelia, condenado, mas nunca cumpriu a pena. Com mêdo de uma vingança, desapareceu no mundo).
Mas havia o dia seguinte. É sempre o pior. No momento da tragédia, há uma multidão que deseja participar. Confortar. Depois, um silêncio crepuscular domina tudo. Começa a angústia. A tragédia passou. A dor começou. A angústia é por se saber o que não se pode dominar: o amanhã. O que será do amanhã? Quem seremos amnhã? onde estaremos amanhã? Haverá amnhã? Há. Depois da dor há muitos amanhãs. E todos doem sempre.
Enquanto uma sobrinha de minha avó emprestava um pedaço de terreno, cujo limite eram as próprias paredes do ranchinho de tábuas, fui emprestado a uma tia-avó velha e sem filhos, chamada Margarida. Todos a conheciam como "Tia Margarida". Era casada com um mulato aposentado chamado Arcilio, mas era conhecido como "Tio Alcides". Ranzinza também. Os dois. Um par de velhos ranzinzas. E o fato de não terem filhos os transformava em pessoas amargas e insensíveis. E vou além: eram cruéis.
Pode-se pensar em como podem ser cruéis pessoas que acolhem um bebêzinho órfão de pai e avô, na quase absoluta miséria? Talvez por isso mesmo.
Fiquei lá por mais ou menos uns quarenta dias. Não lembro nada. Seria um fenômeno que eu pudesse lembrar. Mas me contaram com riqueza de detalhes que chego a lembrar com nitidez das cenas que descrevo aqui. Tenho boa memória. Tenho uma excelente memória mesmo. Como eu dizia...do que mesmo eu falava? Ah, sim, Tia Margarida.
Soube por exemplo que meu nome foi trocado pelo casal de velhos. Num desses dias fui levado ao médico e na ficha foi dado meu nome como "Hugo Luiz da Silva". Este foi, aliás meu segundo nome, pois até então eu fui batizado na paróquia de Cazuza Ferreira com o nome de "Paulo Celso Cardoso Borges dos Reis". Paulo, por sugestão de minha mãe. Celso foi idéia do meu pai. Cardoso era meu avô paterno: Assis Brasil Cardoso. Borges, de minha avó materna, uma caboclinha "cafuza", cruza de índio e negro, nascida na Bahia e criada por um casal de alemães, cujo pai adotivo era um pastor. E Reis era por parte de meu avô paterno: Donato Dos Reis, vulgo "Donato Bonito".
Na verdade pouco importava que nome me era dado, pois eu não tinha sido registrado mesmo. Isso só aconteceu aos seis anos de idade, quando fui para a escola pública. Mas eu chego lá. Tem muito brejo no meu caminho ainda até me encontrar com minha primeira professora.
A questão agora era o que a Tia Margarida fazia. Fazia e dizia: que era minha mãe natural!! Claro que poderia dar certo, pois Sara, mulher de Abraão se tornou mãe aos noventa e um anos. Tia Margarida era bem mais jovem. Tinha 58 anos ou próximo disso..a mais. Mas, enfim. Se ela era minha mãe, nada mais natural que eu a chamasse por esse adjetivo: "mamãe". E eu chamava. Fazer o quê? Ela insistia tanto nisso e me deixava comer casquinhas de queijo.
Foram as casquinhas de queijo, na verdade que desencadearam uma encrenca danada entre aquela garotinha de dezesseis anos que tinha me parido e aquela gentil senhora que perambulava pela parentalha, garbosamente miraculava-me como um rebento de sua pureza senil (era caduca mesmo).
As casquinhas de queijo, que gosto até hoje e só não como mais porque acho quem nem todos os queijeiros lavam as mãos ao transportar as bolotas para o mercado, e também porque acho que nem todos os empilhadores de queijo lavam bem as mãos após a visita ao mictório e também..bom. Não tenho comido cascas de queijo ultimamente. Mas na época de Tia Margarida, eu comia sim. Até porque era o que ela me dava como guloseima. E minha mãe (a de verdade) viu isto, no dia em que foi me visitar. Tia Margarida tinha outras visitas e generosa como achava que era, resolveu oferecer um café com mistura. Havia pão, geléia, café, leite, biscoitos e queijo. Mas ninguém podia tocar nas cascas, porque as cascas eram para o nenê.
Minha mãeo (a de verdade, não a velha impostora) viu aquilo e tomou as casquinhas da minha mão, trocando pelo miolo do queijo. A velha viu aquilo e ralhou com ela dizendo: " Não faça isso, minha filha. Assim ele acostuma mal. Ele tem que saber que criança não pode ter tudo o que deseja. Coma você o queijo e deixe que ele coma as cascas. Ele gosta de comer casquinhas. Sempre as come. Gosta também das casquinhas de pão. Eu sempre dou".
Minha mão cândidamente respondeu: "Mas eu não quero que meu filhinho coma casca de queijo. Deixe que eu dou a ele o meu pedaço".
A velha ficou possessa. "Seu filho?", esbravejou? Esta peste é seu filho então? Pois então leva ele daqui. Some com essa sarna, este piolhento. Se ele é teu, vai e cria tu mesma.
"Pois é o que vou fazer", dizze minha mãe. E saiu comigo dali para nossa choupana.
Ainda da Tia Margarida, lembro que alguns anos mais tarde, eu deveria ter sete, talvez oito anos, fui visitá-la, à tarde. Era uma tarde quente. Ela me chamou para dentro e me fez sentar à mesa. Daí, com uma doçura terrivelmente peculiar me ofereceu um pedaço de melancia. Eu adorava melancia. Era tão difícil que tivéssemos melancia em casa, mas quando tinha, minha avó generosamente deixava que a parte maior ficasse comigo. Na verdade, todos comiam muito, pois minha avó comprava sempre as maiores. Pouco comprava, mas quando comprava, era pra valer.
Minhas mãozinhas tremiam de emoção. A boca se enchia d´água e eu já me preparava para as delícias oferecidas pela doce melancia. Mas eu esquecia (na época eu tinha péssima memória, memória de criança) que entre eu e aquela doce melancia..estava Tia Margarida. Com ar astucioso ela tirou a melancia do armário (geladeira era luxo só de ricos), pôs à mesa, serviu-me um suculento pedaço bem generoso e quando eu ia levá-lo à boca, me interrompeu e perguntou com solene preocupação: "Mei filho: Você tomou leite hoje?"
-Não, Tia. Não tomei.
-Você tomou.
_Não. Não tomou.
E retirando o prato com melancia da minha frente sentenciou: "Tomou sim". Não vai comer melancia".
Eu tenho certeza que a vi sorrir escondida.
Pobre Tia Margarida. Quando morreu, na passagem do ano de 1972 para 1973, reuniu os parentes pobres. Todos. Alguns dias depois seus bens foram divididos (Tio Alcides já havia morrido bem antes), coube à minha mãe um belíssimo relógio de parede que tinha o som mais lindo que eu conhecia. Acho que era um relógio americano. Fiquei muito feliz, mas por pouco tempo, pois nem minha mãe, nem minha avó permitiram que aquela tralha ou qualquer coisa que lembrasse a velha inescrupulosa fizesse morada em nossa casa. Que pena. Era um relógio tão lindo.
Mas hoje, lembrando bem, acho que toda vez que o carrilhão tocava, me parecia ver o olho vesgo arregalado da Tia Margarida perambulando pelos cantos escuros e tramando alguma perversidade. Melhor que o carrilhão se fosse mesmo. Melhor assim.

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TIA LINA, TIA ZEZÉ, TIA LEONOR E TIO JOÃO
Todo mundo tem tios. Quase todo mundo. Tio é componente básico de todas as biografias. Quem nunca teve uma tia doida? Um tio bondoso? Quem não dormiu na casa dos tios? E quem nunca teve uma tia gorda na família? Geralmente a mais hilária, tosca, esdrúxula até?
Eu os tive. Todos. Cada um deles com suas peculiares e até hilárias facetas. Por exemplo, diante de algo espantoso, a reação deles era engraçada. Tiao João dizia: "É Tirríiiivii". Tia Margarida s encolhia, arregalhava os olhos, aspirava fundo pela boca e sentenciava: "´Miftéerioo". Minha avó, irmã desse povo exclamava: "Misericóordiaa".
Mas cada um deles também tinha particular riqueza pessoal, humana e humanitária.
Tia Lina era gorda. Tinha um largo e perene sorriso e os olhos finos e puxados, que fortaleciam sua expressão sorridente. Sempre. Conheci-a já velhinha, como todos os demais (para um menino de nove anos, velho era quem tivesse mais que trinta e dois. Todo mundo deve ter (ou deveria ter) um tio bondoso, quem distribua agrados, como os tios e tias que eu tive, que iam de um sorriso, uma história bem contada, um lanchinho ou simplesmente um olhar contemplador que exalasse sabedoria.
Gosto de falar deles, porque me evocam boas lembranças. Uma infância pobre e cercada de percalços que só mais tarde fui comprender a dimensão deles, mas feliz o quando podia ser feliz, por conta deste universo de tios, tias, primos e primas que me cercavam.
Tia Zezé. Dela vale um, dois, muitos capítulos a contar. Vale a lembrança de sua doçura comigo.
Magrinha, muito magrinha, morreu aos oitenta e quatro anos, mas com lucidez de vinte. Caminhava agachadinha e vestia sempre um vestido de algodão ou de chita que ia até quase os pés, comlementado por um perene avental, sua marca, sua vida. Avental é algo digno, nobre, pois mais que uma proteção da roupa, é uma bandeira de labor. Pois Tia Zezé, tinha seu avental, que para mim lembra batata doce assada com leite gordo até hoje. Era uma identidade. Marca sua. Um magro avental de algodão xadrez surrado. Modesto, sem nenhuma vaidade.
Na companhia de Tia Zezé e seus filhos (Jeremias, Elias, Ananías (o nome certo é Ananísio, mas acho que nem ele lembra disso), Zacarías, Malaquias, Isaías e Saulo, entre os homens, e Cândida, Alzira e Raquel, as mulheres).
Jeremías e Saulo viviam junto com ela. Saulo, o "nenê" morreu aos cinquenta e quatro anos. Era especial. Era downiano. Jeremias morreou, acho que perto dos sessenta. Não lembro a idade, mas lembro do seu jeitão sempre cortês e alegre. Um tipão de bem com a vida, fosse ela qual fosse. Falava alto, talvez pelo costume em trabalho, porque gerenciava uma serraria. Era muito magro, como todos os outros irmãos. Usava um bigodinho demodê sempre bem aparado, e no cabelo algo que fazia brilhar. Não sei o que era, mas gostava do cheiro. Porque gostava dele também. Fiz dele a figura do pai que não conheci. Uma espécie de pai, amigo e irmão mais velho. Era meu herói. Eu achava engraçado e importante tudo o que ele me dizia. Aprendi desde cedo que com um menino deve-se sempre falar como se falasse com um adulto. Com respeito. A gente não esquece nunca mais. Era assim que Jeremias nos tratava, a todos. A mim e aos seus sobrinhos. Indistintamente. Aprendi com ele a tomar chimarrão. Com ele tomei gosto pelo trabalho rude, cavar buracos, levantar cercas, plantar moirões e podar parreiras. Ele me ensinou que moranguinho "de sapo" (silvestre)" poderia ser uma iguaria digna de um palácio, se cortado ao meio, adoçado e adicionado água fria. Foi com ele que aprendi  que todos somos iguais diante duma cuia de chimarrão, um ritual de respeito e reflexão. Aprendi que se eu trabalhasse algumas horas livres por semana, eu não seria um marginal, mesmo sendo de menor, mas poderia obter a dignidade de poder pagar meus lanches do fim de semana e a entrada do cinema, nas matinés. Era pouco, mas era digno. E prazeroso trabalhar com ele na chácara, como chamava um lote separado dentro de suas terras e cheio de frutíferas, parreira, horta rasteira, um tesouro de prazer com cheiro de terra e gosto de natureza. Mais gostoso ainda era a hora do "fristique" (aportuguesamento do alemão Früstick" - lanche) que Tia Zezé nos levava numa grande cesta de vime, lá pelas quatro da tarde, abastecida com Café com leite, pão caseiro, um pedaço de lingüíça, marmelada, batata doce assada, biscoito e moranga assada para comer com leite. Tudo na mesma cesta. Não poderia haver vida melhor que aquela. O cheiro da terra ali gritando, exalado das covas dos palanques, e o vento da tarde batendo nas folhas dos caquizeiros e pessegueiros pipocando de passarinhos e borboletas douradas.
E sempre junto de nós iam dois cuscos pulguentos e amistosos, que deitavam aos pés do Saulo e do Jeremias, dedicados a nos fazer guarda.
E havia o Saulo, doce como um menino de três anos. Ciumento como um menino de três anos. Despojado, como um menino de três anos. Não sabia levantar uma enxada. Nem o machado. Não sabia nem empurrar um carrinho de mão. Mas sabia nos fazer rir com sua ingenuidade, quando cantava, tentava falar em inglês (o Jeremias resolveu estudar depois de adulto, e tudo o que aprendia, "ensinava" ao Saulo). Assim eu lembro da Tia Zezé. Do Jeremias, do Saulo. Assim eu sinto uma saudade doce da minha infância feliz.
ReflexõesPacard

1 – Os Ventos
Sempre ouvi dizer que a sabedoria morava junto ao silêncio, e resolvi então buscá-la.
Levantei bem cedo, pois o primeiro silêncio anda junto da aurora. Andei no rumo do sol e perguntei à brisa que me acompanhava:
- Conheces a sabedoria?
- Dela ouvi falar- me respondeu.Por que a buscas nesta hora do dia, em que melhor é vagar sem saber onde chegar?
- Porque sei que a posso encontrar e desejo dela sorver graça para minha vida – argumentei esperançoso de pudesse forçar o vento a me conduzir a um ponto de partida.
- Ventos não andam em busca de abstrações – disse com ar de melancolia. Somos a abstração que se pode sentir sem tocar. Somos a metáfora de Deus, porque não nascemos onde nos possam dar nome. Não andamos por caminhos pré-estabelecidos, e desaparecemos sem que nunca tenhamos sido tocados. Somos como o espírito vivo, embora caminhemos como a morte.
Ninguém nos pode guardar. Sabem quem somos só depois que passamos. Somos o passado como vozes do presente. Nos podem ouvir, até mesmo há quem procure traduzir nossas canções, mas frear nosso curso não há quem consiga.
Somos o acalanto dos órfãos. Somos o bálsamo dos que queimam. Somos sopro Deus dando vida. Somos a própria vida.
Enquanto o sol mais alto surgia, devagar como o tempo, a brisa desapareceu. Aborrecido por não ter minha pergunta respondida, me retirei arrazoando com meus pensamentos, trôpego pela embriagante musicalidade da manhã, foi quando percebi que tivera minha primeira lição: A sabedoria é como a brisa mansa. Vem, anda junto e se vai. Dela ficam em poucos, as marcas. Dos que se deixam acarriciar por sua suavidade, como que pelos dedos da brisa nas folhas das árvores.

2 – As árvores
Continuei a caminhar e encontrei uma grande árvore. Já alto o dia, queimavam-me os raios do sol altivo e imponente, como um velho mestre a impor disciplina ao aluno displiscente. Sentei-me à sombra e com jovial ociosidade fitei o cintilar entre as folhas, como se o olhar do velho professor buscasse me encontrar entre as frestas de meu esconderijo.
Era uma castanheira, frondosa, forte, abraçando em círculo com seus braços longos tudo o quando pudese abraçar, como uma mamãe pássaro a envolver seus pintos sob pequeninas asas, mas que se multiplicam de tal modo que nenhum deles perde seu aprisco acolhedor sob a mais intensa chuva ou causticante sol.
Ao lado da castanheira, uma araucária alta, coroada de belas copas ostentando pinhas e balançando uma a uma como troféus por sua imponente forma.
Pousou entre as folhas da castanheira um pequenino pássaro. Quase ao meu lado. Arredio, ligeiro, atarefado em observar tudo ao seu redor como um guradião atenta para o perigo que ronda seu tesouro.
- Conheces a sabedoria? –perguntei ao pardal.
- Como ela é? Tem forma? Sabor? Cor? Pousa em que árvore? Constrói ninhos? Encontra sementes para seus filhotinhos? Banha-se nas fontes e bebe nas folhas? Quão alto voa? Brinca nos ares e voa em bandos? Procura o sul sem repouso em vôos sem descanso? Canta ao amanhecer e repousa com o crepúsculo? Foge dos predadores com astúcia? Etc, etc, etc?
Disse isso e voou dali pousando nos galhos, longe das folhas espinhentas da araucária.
Fiquei estarrecido com tantas perguntas, e enquanto ainda tentava assimilar a primeira delas, acompanhei instintivamente o ir e vir daquele passarinho, até que ele voasse para tão alto e eu não o visse mais.
Assim como chegou, se foi, sem me responder. Apenas fiquei observando o balançar das folhas de ambas as árvores pela brisa que passava, e acompanhar pássaros que iam e vinham, pousando numa e outra árvore. Na castanheira, entre as folhas. Na araucária, sobre os galhos.
Saí dali e contineu a andar. Foi quando percebi que a sabedoria estivera comigo outra vez e eu não havia percebido.
Concluí que como as árvores também podem ser as pessoas: assim as pequenas como as imponentes. Naquelas, cujas folhas pendem para o chão e se deixam soprar pela brisa, outras se podem achegar e construir seus ninhos. Embora imponentes e altivas, suas folhas sempre estão voltadas para baixo, humildes. As demais, cujas folhas também são voltadas para cima, são espinheiros, que não permitem a ninguém se aproximar. Tornam-se intocáveis e inatingíveis.
Olhei para trás, e pareceu-me por um instante ter visto olhos cintilarem entre as folhas que arrazoavam com o vento e os pássaros a respeito da sabedoria.